segunda-feira, 26 de julho de 2010

Após o Iraque, só falta o Irã.

           A quarta rodada de sanções contra o Irã aprovada pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas em 9 de junho último, embora não tenha tido o impacto econômico que Washington desejava, nem por isso foi insignificante, como muitos analistas a definiram. A última resolução reafirma e amplia o escopo de sanções já aprovadas nas três resoluções anteriores. A resolução prevê punições a entidades estrangeiras que venham a vender petróleo refinado ao Irã, ou auxiliar a sua capacidade doméstica de refinamento. O que é uma medida significativa, dado que a maioria do petróleo refinado do Irã, embora o país possua a terceira maior reserva de petróleo do mundo, é importado de empresas estrangeiras. A República Islâmica não possui a tecnologia necessária para o refinamento do seu petróleo. Países estão proibidos também de permitir que o Irã invista em suas plantas de enriquecimento nuclear, minas de urânio e outras tecnologias nucleares relacionadas e de venderem equipamento militar pesado para o país, como tanques, aviões, sistemas de mísseis, etc. Outro alvo de impacto das resoluções é sobre negócios e transações financeiras feitas pelo corpo da Guarda Revolucionária Islâmica, cujos membros possuem várias empresas no setor de energia. Aproximadamente 40 indivíduos estão banidos de viajar e estão com suas contas no exterior congeladas. A resolução também exige que países que mantém laços econômicos com o Irã inspecionem navios e aviões que tenham o Irã por destino ou que dele partam, caso suspeitem de que cargas proibidas estejam a bordo. 40 empresas estão na lista negra, o Banco Central Iraniano foi mencionado, seguido de um pedido para que os países “exercitem vigilância” ao negociar com ele, fato que sem dúvida dá bases legais para, num futuro imediato, estrangular as transações financeiras entre o Banco Central Iraniano e os bancos centrais dos outros países.
           Embora Pequim, como parceiro comercial do Irã e responsável por grandes obras de infraestrutura no país, como o metro de Teerã, tenha em certa medida frustrado as intenções de Washington de aprovar uma resolução final mais dura, o seu voto a favor no Conselho de Segurança, assim como o da Rússia, principal exportador de equipamento militar para o Irã, mostra que ao menos até agora ambos os países com poder de veto não estão dispostos a se contraporem aos Estados Unidos em relação aos seus objetivos na região.
       Mas a questão central do caso Irã é como novamente está se fabricando, como no caso do Iraque, a mentira de uma suposta ameaça militar. Toda a propaganda de que o Irã seria uma ameaça à estabilidade na região e estaria enriquecendo urânio com o propósito de desenvolver armas de destruição em massa é no mínimo ridícula. Mais um  mecanismo utilizado pelo governo estadunidense e sua mídia corporativa para desinformar deliberadamente a sua população, e forjar uma justificativa civilizatória para a invasão, traduzida nas palavras de Robert Gates, atual Secretário de Defesa dos Estados Unidos, por "fazer os iranianos entenderem quais são os seus melhores interesses”.
          O Irã é um dos países na região com o menor orçamento militar, 7 bilhões de dólares ao ano. Israel investe anualmente 12 bilhões de dólares e a Arábia Saudita 25 bilhões. O Irã está longe de ser uma força militar na região. O país nunca realizou incursões militares além do seu território e o seu poder atual é gerado muito mais pela condição geopolítica do Oriente Médio , do que por uma postura do próprio Irã. As medidas iranianas são claramente defensivas. Ninguém deseja que o Irã desenvolva armas nucleares, o que ele parece estar muito longe de conseguir, mas uma coisa é certa, com a forte presença militar  dos Estados Unidos e das forças de coalizão em países que fazem fronteira com o Irã - o Iraque a oeste e o Afeganistão a leste - e vendo a sua soberânia ameaçada,  parece que a única alternativa que resta ao Irã, para impedir uma invasão futura dos país, é o desenvolvimento de tecnologia nuclear para fins militares.
         Washington está dando rigorosamente os mesmos passos que antecederam a invasão do Iraque. Com o propósito de forçar uma instabilidade interna no Irã, primeiro forja a propaganda de demonização do país, que vem se intensificando desde a administração Bush. Em seguida, empreende uma guerra econômica mediante a aprovação de resoluções no Conselho de Segurança das Nações Unidas, com o propósito claro de estrangular economicamente o país. E, por fim, a invasão.
         Nunca é demais lembrar que o Oriente Médio é a preocupação central do governo estadunidense no que se refere a sua política externa e aos seus interesses econômicos. As três maiores reservas de petróleo estão na Arábia Saudita, Iraque e Irã, respectivamente.
          A Arábia Saudita, país mais anti-democrático na região, governado exclusivamente por uma família real, sempre foi um grande aliado de Washington, e é o regime ditatorial na região com o qual os Estados Unidos e suas companhias de petróleo mantém os negócios e parcerias mais consolidados. Já o Iraque, sob a ditadura de Saddam, foi por muito tempo um parceiro dos Estados Unidos, e com o apoio de Washington invadiu o Irã provocando uma guerra de quase uma década, que resultou na morte de aproximadamente 1 milhão de pessoas. Saddam usou até mesmo armas químicas contra populações civis no conflito. Quando Washington viu os seus interesses dificultados por Saddam, invadiu o país, e em quatro anos privatizou o petróleo iraquiano distribuindo-o entre suas corporações. Por meio da criação de uma lei chamada New Oil Law (Nova Lei do Petróleo), aprovada por um governo formado pelos Estados Unidos, o Iraque fechou contratos com as empresas estadunidenses, que repartiram entre si grande parte do bolo. Apesar da catástrofe humanitária, milhares de iraquianos mortos em decorrência de sanções e 7 anos de invasão, e 4.2 milhões de pessoas deslocadas pela guerra até 2007 (Refugies International, August 2007), a invasão tem se revelado um empreendimento altamente lucrativo para as companhias de petróleo estadunidenses, e geopoliticamente importante para o governo norte-americano. Ninguém tem dúvida de que controlar as principais fontes de petróleo do mundo garante um poder econômico sobre os países cuja economia depende fundamentalmente da exportação de petróleo e sobre países que precisam importar todo o seu petróleo.
           Se a questão fosse a ameaça militar, certamente que o problema central seria Israel, único país no Oriente Médio que possui armas nucleares, e principal aliado de Washington na região. Israel, embora possua armas de destruição em massa, não é signatário do Tratado Internacional de Não-proliferação de Armas Nucleares, e não permite qualquer inspeção do seu território por órgãos internacionais. Tanto Israel, quanto Índia e Paquistão, outras duas potências nucleares não signatárias, desenvolveram armas nucleares com transferência de tecnologia estadunidense.
          Talvez a evidência, para os que ainda preferem a propaganda do establishment, mais clara de que Washington tem outros interesses em relação ao Irã, foi o fato de os Estados Unidos desconsiderarem o acordo diplomático feito entre Brasil, Turquia e Irã, segundo o qual este se comprometeria a enviar parte do seu urânio não enriquecido para a Turquia e receber uma quantidade de urânia enriquecido para ser aplicado em tecnologia médica. Obama se opôs a esse acordo com o argumento de que ele já não contemplava o que era preciso ser feito, quando o próprio acordo foi proposto pelo governo estadunidense e considerado de grande importância numa carta enviada de Obama para Lula dias antes de iniciarem as reuniões em Teerã entre os três países.
         Historicamente, Washington desempenhou um papel central de desestabilização política e econômica do Irã. Em 1953, um governo laico, parlamentar iraniano eleito democraticamente foi deposto por um golpe arquitetado pelos Estados Unidos e a Inglaterra, e no lugar foi posto o governo tirano e clientelista do Xá, que ficou no poder até 1979, quando derrubado pelo levante popular que ficou conhecido por Revolução Islâmica.
          Motivo do golpe anglo-estadunidense: o governo iraniano havia nacionalizado o seu petróleo, então controlado por empresas britânicas e estadunidenses. Desde o fim da segundo guerra os Estados Unidos tem tido um papel determinante nos rearranjos geopolíticos da região, contribuído para a instabilidade na região e o fortalecimento de governos autoritários e de orientação fundamentalista. Independentemente da questão política interna do Irã, se seu atual governo viola direitos humanos e frauda eleições, “profana” Israel, e enriquece urânio com fins militares, essas não são as razões da guerra, até o momento, propagandística e econômica, iniciada na administração Bush, e aprofundada com Obama, contra o Irã. O que estamos a ver são os primeiros passos em direção a mais uma futura invasão. É quase certo que se os Estados Unidos não conseguirem desestabilizar o Irão ao ponto de provocar a queda do atual regime e a ascensão de um governo que não provoque a “instabilidade na região”, que, como Noam Chomsky muito bem observou, significa um governo que obedeça incondicionalmente às ordens de Washington, a invasão será inevitável.
       Se nem um possível veto no Conselho de Segurança pode parar os Estados Unidos quando os seus interesses e de suas corporações estão em jogo no Oriente Médio - basta lembrar como Washington passou por cima do Conselho de Seguranças no caso do Iraque - somente mesmo um Irã nuclear para salvaguardar a sua soberania. Contudo, o país parece estar ainda longe de tal capacidade. A situação atual no Oriente Médio, já bastante tensa, tente a se agravar nos próximos anos. Resta saber se os Estados Unidos estará realmente disposto a arcar com o ônus de mais uma guerra, quando ainda atolado em duas há aproximadamente uma década. Creio que sim, afinal de contas para Washington a guerra sempre parece trazer muito mais lucro e poder do que gastos.

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Algumas Fontes:

* The Iranian Threat, by Noam Chomsky http://www.zcommunications.org/the-iranian-threat-by-noam-chomsky-1;
*  Quarta Resolução de sanções contra o Irã http://daccess-dds-ny.un.org/doc/UNDOC/GEN/N10/396/79/PDF/N1039679.pdf?OpenElement  ;
* Iran is not the problem, documentário realizado por ativistas estadunidenses http://freedocumentaries.org/teatro.php?filmID=305&lan=en&size=big ;
* Entrevista com o Secretário de Defesa do Governo dos Estados Unidos, Robert Gates: http://english.aljazeera.net/programmes/frostovertheworld/2010/06/201061091243602584.html ;

2 comentários:

  1. Olá Michel, que tal estão as coisas e como estão as pesquisas do seu Mestrado? Certamente dentro do planejado, pois você tem estratégia e determinação. Acabei de ler o texto acima e como agora tenho a internet mais estável (instalei 3g) então resolvi postar este comentário.
    Sua redação está a cada dia mais apurada, as palavras são colocadas no seu devido lugar, os verbos no seu tempo correto, sem excessos. O conjunto refletindo o seu pensamento, com a profundidade que você imprime. Escrita limpa.Densa. Estilo elegante e contundente. A propósito, sobre texto em questão, considero que os EUA e o Irã mantém um teatro que interessa a ambos. O Irã tem em seu Presidente atual um porta voz astuto que reinseriu o País no noticiário mundial e retirou o País do limbo midiático que se encontrava. Resgatou sua importância regional com isso e a auto estima de um povo que tem uma história de grandeza,do grande império persa, repleta de conquistas e feitos. Tudo isto utilizando-se apenas do discurso através da comunicação televisisa, especialmente. Os EUA, por sua vez, mantém o discurso ameaçador de sempre, porém, já não tem a rede de apoio de outros tempos. Já não é o único protagonista no cenário econômico mundial (determinante). Mantém seus aliados, porém, não tem deles o comprometimento de outrora. Invadir o Irã? Bobagem. Manter o discurso belicoso? Interessante. Para ambos.
    Um forte abraço.
    Seu Tio.
    João L. Alavarse

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  2. Sensacional, Parabéns!

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