domingo, 17 de julho de 2011

Federação independente dos trabalhadores egípcios: sinais de radicalização da luta.

        A Federação Egípcia de Sindicatos Independentes emitiu neste mês uma carta pública na qual constam os principais princípios da Federação. Embora já tenha tido tentativas anteriores de união de sindicatos independentes durante a ditadura militar, quando somente sindicatos associados ao Estado e ligados ao Partido Nacional-democrático (o partido do regime) eram permitidos, somente após a revolução consolidou-se uma declaração constitucional de direito da existência de sindicatos e federações independentes. Os sindicatos que formam a Federação são oriundos dos mais diversos setores: de serviços, funcionalismo público, indústria, construção civil, camponês etc. No seu documento a Federação deixa claro a sua valorização da luta por justiça social, questão central da revolução, que também exige liberdades políticas, mas cujo fermento foi e tem sido a exclusão social da maioria da população, que vive em condições terríveis de desemprego, pobreza, fome, etc.

         Entre os princípios da Federação destacam-se: “independência em relação a todos os partidos políticos, instituições e organizações oficiais, organizações de direitos humanos e indivíduos”; (2) “os sindicatos independentes [...] somente seguirão as vontades das assembléias gerais dos seus membros e que o princípio de independência é um princípio geral que se aplica a todos os membros sem exceção”; (3) rejeição “de todas as formas de cooperação com pessoas ou organização envolvidas em acordos”; (4) “Afirmamos também que uma das principais razões da nossa rejeição da antiga Federação dos Sindicatos Egípcios é a sua subserviência ao Estado e ao Partido Nacional-democrático”. (5) “Os sindicatos independentes dependem para o seu fundo de contribuições dos seus membros e não aceitará apoio financeiro de qualquer outra fonte, quer interna que estrangeira. As assembléias gerais têm total autoridade para supervisão financeira dos sindicatos. Afirmamos que este princípio de auto-financiamento e auto-suficiência é parte inseparável do princípio de independência sobre o qual os sindicatos estão fundados”.

         Importante também de destacar é a oposição da Federação aos acordos entre o Estado de Israel e o Egito, tanto no que se refere a questões centrais para a geopolítica da região, como a questão Palestina, dando completo apoio à resistência palestina, quanto o repúdio a acordos econômicos, apoiados pela Federação Egípcia de Sindicatos, como a conhecida venda de gás para Israel: (1) “acompleto apoio aos direitos do povo palestino de criar um Estado independente em toda a Palestina, e ao seu direito de usar os meios de resistência para conquistar os seus direitos”; (2) rejeição “ao fracasso [da Federação Egípcia dos Sindicatos] em se opor [...] ao acordo de fornecimento de gás e outras políticas que por seu silencio ela apoiou enquanto o movimento dos trabalhadores egípcios as rejeitaram e resistiram a elas”.

        Embora o foco da imprensa na sua maioria é sobre a formação de partidos políticos como possíveis expressões dos mais diversos setores da sociedade egípcia, o que também é importante, mas que não significa necessariamente que a população esteja participando verdadeiramente na formação e determinação dos programas dos partidos, a iniciativa de organização independente dos trabalhadores egípcios é sem dúvida o passo mais importante no processo revolucionário em curso no país. Sobretudo porque, ao contrário do que se veicula (com o mito das redes sociais e dos jovens bem formados e antenados), foram setores dos trabalhares egípcios, que vivem condições de trabalho extremamente precárias, com salários miseráveis, além de por décadas terem sofrido repressões sistemáticas e proibidos de se organizarem, que criaram as condições para os 18 dias de mobilizações que derrubaram Mubarak.

       O inconformismo dos trabalhadores com suas condições era tamanho que em 2010 não houve um dia sequer no Egito em que trabalhadores de algum setor não estivessem em greve. Mais uma vez, independentemente da existência ou não de partidos com posicionamento real ou retórico de classe, os trabalhadores, por meio das suas formas de organização de resistência e de reivindicação de direitos, procuram, de forma independente, fazer luta e radicalizar o processo democrático mediante o conteúdo claramente de classe das suas demandas.         

        Toda solidariedade ao movimento dos trabalhadores que estão procurando consolidar uma Federação independente, que de fato seja controlada pelos próprios trabalhadores egípcios e que, por isso, expresse realmente suas demandas. Pois não há dúvida de que os caminhos que esta revolução em curso tomará dependerá em muito da capacidade de pressão da classe trabalhadora egípcia e da sua unidade na luta por uma radicalização classista do processo democrático.

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Referência:
* Declaração em inglês da Federação Egípcia de Sindicatos Independentes:
http://www.zcommunications.org/egyptian-independent-union-federation-statement-by-egyptian-independent-union-federation

quarta-feira, 2 de março de 2011

OS JOVENS SÃO O POVO NAS REVOLUÇÕES NOS PAÍSES ÁRABES.

OBS: Este texto foi escrito para ser lido em um debate público sobre o papel da juventude nas revoluções e insurreições populares nos países árabes, por isso há nele trechos de outros textos que escrevi sobre o que vem ocorrendo nos países árabes. Contudo, não foi possível comparecer. Mesmo assim compartilho publicamente o texto.

          A auto-imolação, na Tunísia, do jovem Mohammed Bouazzi, bacharel desempregado, após ser humilhado nas mãos de uma autoridade policial e ter sua carroça onde vendia frutas para sobreviver confiscada, desencadeou uma revolta popular que derrubou um dos regimes mais autoritários do mundo árabe e iniciou uma onda de levantes e revoluções que não ocorriam em proporções semelhantes desde a queda do Bloco Soviético. As razões que, em grande parte, levaram Mohammed Bouazzi a este ato de desespero são emblemáticas das condições sociais e políticas que, sem dúvida, vêm sendo os elementos impulsionadores das insurreições populares nos países árabes: ditaduras há décadas no poder, exclusão de qualquer possibilidade de participação política da população, ausência de liberdade, empobrecimento da maioria da população, desemprego em massa, desigualdade de salários e oportunidades, etc. Condições que se traduzem em três termos: liberdade, pão e trabalho.
           Mas também o fato de Bouazzi ser jovem, bacharel e desempregado, muito diz sobre a realidade desses países. Na grande maioria dos países árabes mais da metade da população tem menos de 30 anos de idade. Em todos eles é o setor da sociedade que mais sofre com o desemprego. Só na Tunísia cerca de três quartos dos desempregados tem menos de 30 anos, e os jovens com Ensino Superior, mas desempregados, somam 22%, contra 14% da média nacional. A maioria dos outros países na região exibem dados semelhantes.
         Por isso, a papel da juventude na organização das insurreições vitoriosas na Tunísia e Egito, e as em curso no Yemen, Argélia, Bahrain, etc., não deve surpreender. Primeiro porque a participação dos jovens nas grandes transformações políticas e sociais no mundo árabe sempre foi muito forte, e segundo porque nas atuais revoluções os jovens são os setores da população que mais têm sofrido os efeitos diretos de anos de regimes que, além de brutais e autocráticos, foram os responsáveis pela implementação violenta das políticas neoliberais nos países árabes. É sintomático da situação atual o fato de que os dois levantes populares que derrubaram seus ditadores, ocorreram nos países que primeiro institucionalizaram as políticas neoliberais no mundo árabe.
        Nestes países – assim como em todos, mas de modo mais forte em Estados sob regimes autocráticos – a aplicação do dogma neoliberal formou impérios em que os negócios e a política governamental estão tão entrelaçados ao ponto de ser impossível distinguir o que é público e o que é privado. No Egito os donos da maioria das empresas privatizadas nos últimos 15 anos são militares ligados à ditadura de Mubarak , muitos dos quais certamente hoje compõem o Conselho Militar que está coordenando o processo de transição. No Tunísia o setor privado em grande parte é controlado por membros da família da esposa de Bem Ali, a própria família de bem Ali e políticos e empresários beneficiados pelo antigo regime.
          Como consequência do estabelecimento da doutrina neoliberal nestes países, o que vemos é o fundamentalismo do mercado imposto aos pobres, supressão do trabalho organizado, privatização e sucateamento dos sistemas de saúde e educação, quedas ou estagnação dos salários referente à inflação, aumento do desemprego (ano passado, segundo dados oficiais, no Egito o desemprego estava em 9,4%), que é muito mais alto entre a juventude, etc. As ditaduras no mundo árabe cumpriram o papel de salvaguardar a santidade do mercado, mediante um aparelho repressor de estado constantemente alerta e legitimado por uma lei de emergência sempre ativa em um governo ditatorial.
        Assim, a participação central da juventude em revoluções que não somente depuseram regimes ditatoriais, mas nas primeiras revoluções com características claramente anti-neoliberais, tem muito a dizer a todo o mundo, e particularmente aos jovens conscientes do fracasso - ou melhor dizendo - falácia do neoliberalismo em trazer bem-estar humano para as populações.
         É inegável a importância das redes sociais como ferramentas descentralizadas para burlar a repressão, organizar os protestos e conectar as pessoas nos países convocando-as para atuar em solidariedade - principalmente em países onde as censuras na mídia tradicional são tão eficazes. Contudo, o que mais importa destacar é que essas novas ferramentas têm sido um meio de se articular para, em seguida, atuar nas ruas, ou seja, ir para a ação direta.
            O foco, a meu ver exagerado, dado às novas mídias pela imprensa, muitas vezes manufatura a idéia de que as redes sociais foram o fator determinante para o levante de 25 de janeiro no Egito. Elas foram importantes, mas não tão centrais quanto parecem. A media social ajudou a organizar o movimento que derrubou Mubarak, mas o que fundamentalmente levou milhares de pessoas para as ruas ao lado dos ativistas pró-democracia - muitas das quais sem conexão com as redes sociais – juntando forças para se sobrepor à força do aparato de segurança do Estado, foram as injustiças econômicas agravadas consideravelmente com a consolidação do neoliberalismo na região. Não tenham dúvidas que muitos dos jovens que ocuparam as ruas das principais cidades do Egito nos 18 dias que antecederam a queda de Mubarak, sobretudo os jovens trabalhadores das classes populares, não estavam nos protestos porque se articularam pela internet.
         Quem melhor explica a função da media social nas mobilizações é justamente um ativista blogeiro egípcio que em 2008 foi preso pelo regime, como muitos outros, em decorrência da sua atuação política: “quebramos com a idéia de se escrever e não fazer nada. Não é somente palavra, é palavra e ação. E é isso que preocupa muito". A repressão e brutalidade do governo com esses jovens escritores e documentaristas não foi somente por causa do conteúdo do que escrevem e noticiam. Mas antes de tudo porque partiam para ação direta.
         O que incomodava o regime é que esses jovens se articulavam via redes sociais para atuar nas ruas, ir para a ação direta junto com o restante da população. Ao noticiarem e opinarem sobre os fatos - quer estando nas ruas ou presos – e continuarem com a campanha pela liberação dos que ainda estavam presos - os ativistas mantiveram a comunidade internacional informada sobre os acontecimentos, contribuindo, com isso, para criar uma rede internacional de solidariedade à revolta popular e de repúdio à brutalidade do regime. Eles estavam com a população, e não foram, obviamente, vanguardas de um suposto ativismo digital, e que colocavam milhões nas ruas com simples mensagens rápidas no twiter e a partir de comunidades no facebook.
          Tanto é que o principal movimento no Egito de ativistas na rede social, o Movimento 6 de Abril, surgiu justamente em apoio às greves de trabalhadores reprimidas pelo regime em 2008, na cidade industrial de El-mahalla El-Kudra. E é a dimensão que atingiu a coordenação e articulação dessa solidariedade, iniciada sob forte repressão, dos jovens ativistas com as lutas e demandas dos trabalhadores, que deu, inegavelmente, força às manifestações que não começaram em 25 de janeira, mas que a partir desta data adquiriram as proporções que levaram à queda de Mubarak. No Egito, as manifestações iniciadas no fim de janeiro são o coroamento de no mínimo cinco anos de greves, motins, lutas locais e regionais. Por isso que a continuação da solidariedade entre as vozes dissidentes e os trabalhadores, agora, mais do que nunca, será central também, pois é nas greves e continuação dos protestos dos trabalhadores que tem se mantido com mais fervor, tanto antes quanto depois da queda de Mubarak, as reivindicações que alimentaram os protestos em massa, e das quais depende a radicalização do processo democrático em curso.
         Esse apoio mútuo entre os ativistas e os trabalhadores - com mais força no Egito, mas também considerável nos outros países da região em que os protestos têm abalado seus regimes - tem muito a ensinar os movimentos estudantis aqui do Brasil, que, na sua grande maioria, salvo algumas raras exceções, estão tão distantes das ruas, sem contato com os movimentos sociais e aparelhados por partidos. No Egito, o regime não autorizava a existência de organizações estudantis, sindicatos e movimentos sociais. E mesmo assim, em condições muito mais adversas do que a nossa, parte considerável da juventude se organizou junto com os trabalhadores, tentado construir, apesar da repressão, redes de apoio mútuo entre setores da sociedade que tentavam - muitos na clandestinidade - construir uma força popular capaz de fazer frente ao regime.
            Não há dúvida que por causa de serem essas revoluções e insurreições populares os acontecimentos mais importantes da história contemporânea desde o colapso dos países do Bloco Soviético, por causa de serem as primeiras revoluções com caráter anti-neoliberal e de ocorrerem numa região tão estratégica como o oriente Médio e Norte da África, seu impacto adquire proporções e direcionamentos ainda imprevisíveis. A ordem geopolítica da região já não será mais a mesma, e a política de apoio até então incondicional das potencias ocidentais a maioria dos ditadores árabes terá que ser revista para se adaptar às novas condições políticas e sociais que surgirão desta onda ainda inconclusa de revoluções. As revoluções que eclodem no mundo árabe indicam uma possível mudança na ordem política na região unicamente por força do poder popular das insurreições. Qualquer mudança nas relações entre os Estados no Norte da África e Oriente Médio e nas estratégias do imperialismo para região, será - não há dúvida - impulsionada pela pressão popular, e não pelas elites políticas e econômicas, para as quais o clientelismo e proximidade de interesses com as ditaduras derrubadas não deixam margens para mudanças bruscas de direção.
         As ditaduras da região que ainda não caíram estão abaladas, forçadas a fazer concessões, e, depois de Tunísia e Egito, ninguém consegue prever qual será a próxima tirania a cair. No Bahrain, Líbia, Argélia, Yemen e Jordânia as populações se levantam contra seus governos não apenas porque inspiradas pelos exemplos dos povos da Tunísia e Egito, mas também porque a urgência das demandas dos protestantes nestes países são as mesmas: renúncia do ditador, justiça econômica, liberdade participação política, direito de escolher seus lideres, etc.
         A canção do rapper tunisiano, conhecido como Él General, hino de batalha nas demonstrações populares na Tunísia, depois emprestada pelos manifestantes na Praça Tahrir, e agora na boca dos protestantes no Bahrain dão o tom destes protestos, que exigem as mesmas justiças, expressam o ódio contra a pobreza e a opressão, mostram coragem de enfrentar as tiranias, e, por isso, carregam os mesmos valores: “Senhor Presidente, seu povo está morrendo / Senhor Presidente, seu povo está comendo lixo / Olhe o que está acontecendo / Miséria em todo lutar, senhor Presidente / Eu falo sem medo / Embora eu saiba que terei só problemas com isso / Eu vejo injustiça em todo Lugar”.
           Mesmo que não esteja explícito, para grande parte dos manifestantes, que sua revolta é contra os efeitos nefastos da aplicação das políticas neoliberais em seus países, as demandas, que expressam as expectativas de uma maior justiça econômica e social, mostram que as classes populares dos países árabes exigem um basta de tanta desigualdade e exclusão. Se isso de fato ocorrerá, dependerá em muito da continuação da combatividade popular para além da queda de um ditador.
          O que é certo é que as revoluções no mundo árabe, dado a sua demonstração inspiradora de poder popular, anunciam para o mundo, nas palavras de Frank Mintz, que “o capitalismo, bem mais que o Islã, impõe o porte do véu para homens e mulheres. O véu do pensamento politicamente correto, da hierarquia benfazeja, do egoísmo redentor, do dinheiro antes de tudo”.

Que o poder de revolta do povo árabe inspire os povos oprimidos de todos os continentes!

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Mubarak caiu: “o que vem depois?”

          Depois de 18 dias de protestos ininterruptos nas principais cidades do Egito, no dia 11 de fevereiro Mubarak caiu. A população egípcia deixa a sua marca na História ao nos lembrar, mais uma vez, que quando o desejo por mudança supera o medo imposto, a sublevação popular pode, em questão de dias, derrubar governos que há décadas se mantinham no poder pelo uso indiscriminado da força. Mas uma transformação social profunda que reflita da forma mais fiel possível as demandas evocadas nas ruas não se realiza com a simples queda de uma tirania.
         As estruturas de um aparato de Estado profundamente repressor, e administrado por uma elite burocrática formada na sua maioria por setores oriundos do alto escalão das Forças Armadas do país, como é o caso do Egito, não cai, da noite para o dia, com a remoção do tirano. As formas que a transformação social no Egito assumirá nos próximos meses serão determinadas pelas lutas emergentes entre (1) as classes populares e as classes dominantes e (2) as lutas entre os setores no interior dessas classes dominantes.
           É por isso que somente a autonomia das classes populares egípcias, a continuação da sua luta, com uma orientação independente, numa dinâmica participativa que se fortalece a cada nova conquista, será capaz de fazer com que suas demandas por justiça econômica, liberdade, participação política e reestruturação do aparato de Estado, não sejam canalizadas, num processo de cooptação, para uma orientação que termine em uma mera transformação política: a elite burocrática militar sede espaço para os outros setores oposicionistas da classe dominante, forma-se um governo de coalizão que tenta ao máximo equilibrar os antagonismos de interesse e manter a institucionalidade e algumas políticas populares são implementadas para conter a pressão popular.
          É inegável que "a república mais imperfeita é mil vezes melhor que a monarquia [autarquia, regime militar, etc] mais esclarecida", e que ao menos "o regime democrático eleva as massas à vida pública", como destacou Bakunin. O que deve ser perguntado, contudo, é se uma possível democracia representativa no Egito, em que as elites políticas, dissidentes e constitutivas do antigo regime, alternam-se no poder por meio do voto, mantendo, mesmo que com reformas de cunho popular, uma estrutura que preserve ao máximo as relações de dominação e exploração na sociedade, poderá responder às principais demandas que têm levado as classes populares dos países árabes a ocupar as ruas, enfrentar e derrubar seus déspotas.

O dia seguinte
           Na noite da queda de Mubarak, a TV de jornalismo árabe Aljazeera, in loco e ao vivo, transmitia para todo o mundo a euforia e comemoração dos manifestantes ao receberem, num pronunciamento do general e então ainda vice-presidente do Egito, a noticia de que Mubarak renunciava ao cargo. Após 30 anos de despotismo, com perseguição a qualquer voz dissidente ao regime e exclusão da população de qualquer participação política, os egípcios comemoravam a vitória da coragem, espírito incansável, solidariedade e apoio mútuo de homens e mulheres, dos mais diversos setores, mas predominantemente das classes populares e médias, sobre um regime que não mais conseguia governar sobre a simples força bruta. A pergunta dos jornalistas para as pessoas na Praça da Libertação (Tahrir Square) no Cairo, epicentro das manifestações, era: "O que virá depois?". Os entrevistados, tomados pelo sentimento de vitória e libertação, claro que não poderiam fazer analises e projeções naquele momento, e apenas faziam eco a um manifestante que dias antes declarara que "o que quer que aconteça, nada será o mesmo novamente".
         Mas para que nada seja o mesmo novamente, e o mesmo significa aqui a permanência de velhas estruturas de poder, privilégio e repressão do regime de Mubarak, embora uma democracia representativa se consolide, muito tem que ser feito. E é ai que entra duas perguntas centrais: (1) qual será a participação das classes populares, principais responsáveis pela queda de Mubarak, na forma e nos caminhos que a transformação social tomará? (2) O quanto as classes permanecerão fortes e autônomas e ditarão a agenda política de um futuro governo eleito?
        Aos próprios militares, alicerce e beneficiados diretos do regime de Mubarak, foi entregue, pelo ex-ditador, a responsabilidade de coordenar o processo de transição que, ao que parece, culminará com eleições em setembro. Até o momento, o Conselho Supremo das Forças Armadas, parte do antigo regime, desempenha o papel de garantidor do processo de democratização e interlocutor entre o poder das elites e as forças democráticas. O fato de os militares não confrontarem a população durante os 18 dias de sublevação popular deu a eles a imagem de "neutralidade" em face dos acontecimentos. Contudo, dado o seu papel de participantes do governo de Mubarak, a situação em que agora se encontram como setor das classes dominantes que estabelecerá o processo de "diálogo" com a pluralidade das forças políticas do país, a necessidade - aos olhos das elites do país - de restabelecer a ordem, e também a luta que desempenharão para que muito da sua influência e benefícios permaneçam (e isso inclui os militares), forçará que os militares tomem, a médio e curto prazo, decisões estratégicas. E essas decisões mostrarão o quanto a cúpula que forma o Conselho militar não somente compreende a situação na qual se encontra, mas também revelará a força política com que os militares sairão disso tudo.
         Será que os militares acreditarão que poderão subjugar as massas com uma forma de paternalismo temporário, que acalma os ânimos, controla a transição, e assegura que, aos poucos, as linhas gerais das políticas do Estado continuem direcionadas segundo os interesses das elites locais e em acordo com as expectativas das potências ocidentais? A um bem curto prazo essa estratégia de contenção pode dar certo. Mas, dado a força com que as classes populares defenderam suas aspirações, e a continuação da pressão popular para que elas se consolidem, como os militares responderão? Não sendo possível que o direito às eleições acalme as revoltas populares, os militares poderão muito bem tentar retomar a posição de pólo central do aparato de Estado?

As medidas para a transformação
              O que é certo é que as estruturas antigas do aparato estatal egípcio, caso permaneçam, ainda que abaladas, não comportarão o escopo das demandas populares, que, em virtude da sua radicalidade democrática, forçam, necessariamente, uma reestruturação que não cabe em uma transformação política apenas no âmbito da consolidação de um Parlamento cujos membros são eleitos pela população.
            Para de fato se iniciar políticas que atendam às demandas populares - se essas demandas não forem cooptadas por lideranças carismáticas dos setores da elite num processo de transformar as aspirações em instrumentos de novos poderes políticos – grande parte das medidas abaixo terão que ser cumpridas a médio prazo.¹

1) a suspensão do estado de emergência, que já dura há 30 anos;
2) estabelecimento de uma junta civil de transição
3) uma nova Constituinte, com participação de forças democráticas populares;
4) legalização dos partidos políticos, sindicatos e movimentos sociais;
5) julgamento de Mubarak;
6) reorganização do sistema judiciário;
7) prisão e condenação dos capangas do antigo regime;
8) liberdade de imprensa e opinião;
9) reconfiguração das forças policias, desmantelamento das forças policiais de Mubarak e tornar público as práticas operacinais dos serviços de inteligência da ditadura;
10) investigação judicial da corrupção de estado;
11) reconstrução da esfera econômica que contemple as demandas por justiça social, i.e, profunda redistribuição de renda;
12) libertação dos presos políticos, etc.

          Uma reestruturação profunda do Estado egípcio passa pelo cumprimento de grande parte dessas medidas. É provável que grande parte das elites, principalmente as mais ligadas ao antigo regime - e entre elas, claro, os militares -juntarão suas forças políticas para inviabilizar a efetivação de muitas delas, e, não conseguindo, ao menos adiá-las ao máximo. Somente a organização popular, que não há dúvida que aprendeu e cresceu muito com a vitória de 11 de fevereiro, será capaz de forçar a implementação dessas medidas. Tudo ainda está por fazer. O ditador caiu, mas não levou todo o regime com ele. Quanto mais as classes populares conseguirem arrancar, no jogo de forças com as elites, medidas de cunho claramente popular, mais sua força determinará a direção das transformações sociais em curso no país. Não será um caminho fácil, todos sabemos. Nunca se deve subestimas a habilidade das classes dominantes "em se manter no poder em face da luta popular e interferência do imperialismo" (http://www.anarkismo.net/article/18742 ).

Da solidariedade
           Muito dependerá, também, para a radicalização da luta democrática no Egito, do quanto as classes populares conseguirão superar diferenças étnicas, religiosas, de gênero, etc., tão agudas no país, e manter, para além de 11 de fevereiro, a unidade, apoio mútuo e solidariedade de classe tão dominantes nos dias que antecederam a queda de Mubarak. Um dos momentos emblemáticos dessa unidade, a meu ver, foi quando cristãos e mulçumanos, na praça da Libertação, rezaram juntos pela queda do regime. A continuação da solidariedade dos jovens ativistas nas redes sociais com as lutas e demandas dos trabalhadores, agora, mais do que nunca, será central também, pois é nas greves e continuação dos protestos dos trabalhadores que tem se mantido com mais fervor, tanto antes quanto depois da queda de Mubarak, as reivindicações que alimentaram os protestos em massa. Tem ocorrido, por exemplo, protestos e greves nos últimos dias na industria textíl, organizações de mídia, industrias de aço, correios, Ministério da Saúde, ferrovias, etc.
     Vale lembrar que essa solidariedade entre jovens ativistas e os trabalhadores  começou justamente com o apoio às greves de trabalhadores, em 2008, na cidade industrial de El-Mahalla El-Kudra. E é por causa da dimensão que atingiu a coordenação e articulação desse apoio mútuo, iniciado sob forte repressão, que  sua continuação e fortalecimento será determinante na radicalização do processo democrática.

Imperativos externos
           Somado aos grandes desafios internos postos às classes populares no Egito, não podemos jamais perder de vista que o Egito é central na dinâmica da geopolítica no Norte da África e Oriente Médio, sobretudo por causa do seu alinhamento com os Estados Unidos e Israel. Por essa razão, interferências externas, quer das potências ocidentais, quer dos países vizinhos, procurarão interferir decisivamente no futuro político e econômico do Egito. O porvir da profunda transformação social em curso no Egito - mas que iniciou na Tunísia e ameaça inspirar outros países na região - dependendo do seu grau de radicalização, terá consequências imprevisíveis na organização geopolítica da região.
            Não é somente por motivos de estabilidade interna que, nesta segunda-feira, o Conselho dos militares novamente pediu para que os trabalhadores coloquem fim à onda de greves que se alastra pelo país, com o argumento de que os trabalhadores têm interrompido o andamento da economia. Os imperativos de por fim à instabilidade interna, e conduzir uma transição "pacífica" são exigências que autoridades estadunidenses, por exemplo, já vêm há dias pronunciando. No comunicado o Conselho diz que os "nobres egípcios vêem que essas greves, nesse momento delicado, levam a resultados negativos". Quem são esses "nobres egípcios" senão as elites políticas, industriais e financeiras do país, para as quais o que mais interessa agora é que o país tenha o mínimo de estabilidade e segurança para o livre curso das transações capitalistas. Por isso a pergunta: com o aumento de pressão interna de setores das classes dominantes, por um lado, e dos países vizinhos e potências ocidentais, por outro, as forças armadas continuarão evitando o uso da força, caso as greves e protestos continuem?

A realidade antes da ideologia
             Os desafios que a sociedade egípcia está enfrentando, e que somente estão no seu começo, dado a sua complexidade, não permitem que os acontecimentos no país sejam observados com lentes ideológicas, que tentam simplificar a realidade para torná-la rapidamente compreensível. Estaríamos inclusive desrespeitando as classes populares do Egito se a revestíssemos, a priori, de uma missão que não sabemos se ela será capaz de cumprir. Por isso que usar, à revelia, o termo revolução para o que vem ocorrendo, presta mais um desserviço à transformação social no Egito, do que contribui para uma compreensão e apoio lúcido às classes populares de lá. Não confundamos nossas aspirações, vontades e anseios com a realidade, sempre mais complexa e irreduzível a qualquer análise por mais profunda que seja. A realidade deve ser mudada com a força de nossas aspirações, mas nunca explicada por elas.
            Ao invés de fazer falsas imagens do que vem ocorrendo nos países árabes, todos aqueles revolucionários que se consideram internacionalistas, e que apóiam a luta de libertação, quer do jugo imperialista, quer de um regime despótico das próprias classes dominantes de um país, procuremos, se a intenção for de solidariedade, dentro de nossas limitações e com as forças que nos cabem, encontrar formas práticas de apoiar os povos árabes na sua dura luta por emancipação e de denunciar o imperialismo na região. Sem mascarar os imensos desafios que nossos irmãos e irmãs árabes estão tendo que enfrentar.

¹ Ver o artigo para Aljazeera Inglês de Adrian Crewe (http://english.aljazeera.net/indepth/opinion/2011/02/2011213134458448460.html ), de onde tirei algumas das medidas elencadas.

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domingo, 6 de fevereiro de 2011

Os levantes populares em países árabes: uma luta por valores universais.

O poder da revolta popular em curso no Egito vem provocando o medo nos poderes ocidentais e em Israel de que a insurreição, que tem levado às ruas quase 2 milhões de pessoas somente no Cairo, capital do país, leve a uma nova alternativa política que abale a ordem geopolítica da região. Todos os estereótipos proferidos por autoridades ocidentais e israelenses e pela grande mídia desses países de que à queda de Mubarak sucederia um regime fundamentalista islâmico antagonista à Israel, de que as manifestações são lideradas pela Irmandade Muçulmana, maior partido de oposição à ditadura, em suma, de que a população nos países islâmicos prefere ditaduras fundamentalistas, são palavrórios ideológicas para proteger os interesses das potências ocidentais, que temem que essa onda de manifestações se estenda para toda a região.

As palavras de Tony Blair de que o ocidente precisa gerenciar a situação de transição é a síntese desses slogans repetidos sem cessar. A tentativa é de construir a imagem de que o mundo islâmico não é afeito à democracia burguesa, e que, portanto, antes uma ditadura que mantenha "a estabilidade e segurança" na região a um fundamentalismo avesso "às benesses do ocidente".

Ora, sabemos que todo esse teatro ideológico de cenas estereotipadas, que repetem a narrativa falsa de que as populações islâmicas são, na sua maioria, fanáticos que seguem cegamente líderes religiosos, não passa de clichês manufaturados para servir aos interesses de alguns países ocidentais e de Israel e na região.

Os levantes populares no Egito e Tunísia mais uma vez desnudam a mentira desse discurso hegemônico no ocidente. Por isso a fala de Blair pode ser traduzida nos seguintes termos: "aceitamos mudanças desde que a situação global permaneça a mesma, pois democracia no oriente põe em risco nossos interesses".

As revoltas populares marcham e clamam por justiça social e liberdade. Os acontecimentos no Norte da África e Oriente Médio, todos em países há décadas sob regimes ditatoriais alinhados com as potências ocidentais, resultam fundamentalmente de uma questão social. As pessoas demandam dignidade, direitos humanos e justiça econômica. Demandas que refutam os argumentos do multiculturalismo e de algumas baboseiras pós-modernas que negam a universalidade de valores como liberdade e justiça. As revoluções em curso são justamente pela realização de valores universais: justiça social, autonomia , liberdade, etc. Por isso a obrigatoriedade, por um lado, da nossa solidariedade com as revoltas, e, por outro, em procurar desmascarar as ideologias e pseudo-teorias relativistas, que somente servem para legitimar o imperialismo e desumanizam outros povos.

A propaganda vigente apresenta a Irmandade Muçulmana, partido oposicionista mais popular no Egito, fundado em 1928 contra o nacionalismo secular, como estando por tras das manifestações. E isso é uma mentira. O que ocorre é justamente o oposto. Tamanha é a predominância das exigências universais da sociedade egípcia, que lideranças do partido, em pronunciamentos públicos, estão tendo que falar a linguagem da democracia, dos direitos humanos, da liberdade, etc. Não são os religiosos nem outras lideranças da oposição que estão impulsionando as massas, são as próprias massas que estão carregando a oposição com elas.

Além da autonomia das manifestações em relação aos partidos oposicionistas, o fato é também que esses partidos não são um bloco monolítico, como a propaganda ocidental os apresenta. Há tendências diversas, por exemplo, dentro da Irmandade Muçulmana. Há uma tendência alinhada com a interpretação saudita do alcorão, mas há outra próxima da interpretação mais secularista hegemônica na Turquia. Pouco se fala também, por razões claras, das origens do partido e das transformações pelas quais passou nos seus mais de 80 anos de existência. Na sua origem, a Irmandade Muçulmana era um movimento ante-colonialista e contra a repressão. E muito do crescimento do setor mais radical se dever, em parte, segundo Tariq Ramadan, intelectual egípcio, ao fato de que quando Nasser subiu ao poder, numa plataforma de nacionalismo laico, muitos integrantes da Irmandade foram presos, assassinados e exilados. E, em decorrência desses exílios, a Irmandade cresceu em outros países, adquirindo características diferentes, sendo impossível concebê-la como um partido de orientação única e imutável.

Todo esse acobertamento confirma a manobra das propagandas no ocidente de simplificar uma realidade política e social multifacetada, como a do Egito, a meia dúzia de estereótipos reproduzidos sistematicamente em todos os meios de informação hegemônicos, e apresentados como verdades "auto-evidentes". E tudo para justificar o apoio a ditaduras em nome da segurança e estabilidade, que não são outras senão segurança e estabilidade para o livre curso do imperialismo na região.

A dissidência popular no Egito e Tunísia mostra sinais claros de que não quer nem governos fundamentalistas nem pseudo-democracias fantoches . A democracia burguesa dos países ocidentais não impediu - e não pensem que isso seja ignorado pelas populações árabes - que nesses países o poder, governo e riqueza estivessem nas mãos de uma pequena minoria, que parcelas significativas da população estão desempregadas, marginalizadas e perderam quase todos os benefícios conquistados. Sobretudo a partir da crise de 2008, os países ocidentais já não conseguem esconder do mundo que a democracia burguesa faliu, e que nunca foi além de uma democracia política, muito longe de se realizar economicamente. A xenofobia e o crescimento da direita e de orientações neofascistas nos Estados Unidos e países europeus, só podem fazer um árabe rir quando qualquer autoridade ocidental fala de Estado laico. Além disso, que fundamento e moral há em países como os Estados Unidos, onde 30% das pessoas ainda acreditam em fantasmas, e comprometimentos religiosos de políticos e seus partidos determinam eleições, para asseverar que as populações dos países árabes preferem ditaduras fundamentalistas? Não seria grande parte da população ocidental muito mais afeita a ilusões e mentiras, sobretudo as falsidades que o aparato de propagando, tão sofisticado nesses países, forja sobre os países árabes e o resto do mundo?

O que guia os protestos em massa no Egito e Tunísia são demandas por direitos universais em face do desemprego em massa, pobreza, corrupção, injustiça econômica, autoritarismo, repressão, falta de liberdade, etc. E a população sinaliza saber que somente as quedas de Ben Ali e Mubarak não são o suficiente. E que só com uma política de "redistribuição de renda e rompimento com a ditadura do mercado e o imperialismo"( http://www.anarkismo.net/article/18558 ) será possível materializar a justiça social e democracia ansiadas.

A insurreição na Tunísia derrubou a ditadura de Ben Ali, mas as lideranças em torno de governo transitório a ser formado por uma coalizão de partidos, inclusive com políticos ligados ao ex-ditador - que prometeram eleições para daqui 2 meses - pretendem acalmar uma revolta que é social, e solucioná-la em termos políticos. Quando autoridades ocidentais propositalmente falam em dirigir a situação de transição é por se preocuparem em, não podendo evitar o levante popular, ao menos evitar que ele se transforme em revolução social. Ou seja, não dando para manter o ditador, que seja estabelecida uma pseudo-democracia subserviente capaz de acalmar as massas.

Por isso que o maior desafio colocado às populações desses países é, com a derrubada de uma ditadura, como conseguir que uma insurreição, fundamentalmente social, não termine sendo abafada por uma mudança apenas política: elege-se um novo governo, forma-se uma nova elite política – na maioria das vezes nem tão nova assim - e as condições sociais continuam as mesmas.

Por essa razão que a luta por liberdade, justiça social e autonomia apenas começa com a derrubada de um tirano. As populações do Egito e Tunísia vêm demonstrando fôlego para continuarem suas demandas e manterem a luta até que de fato a democracia seja econômica e social, e, portanto, uma revolução de fato, pois somente o povo organizado será capaz de resolver os problemas que enfrentam seus países.

Os levantes na Tunísia e Egito, em menor escala em outros países da região, são uma luta que fala a todos os oprimidos. Pela universalidade de suas demandas, o que se presencia no Norte da África e Oriente Médio é a força social que o poder popular pode ter, onde quer que ele surja.

Toda solidariedade aos levantes populares nos países árabes! Todo poder ao povo organizado!
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quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Transformação social no Egito: entre o imperialismo e a tirania.

       As milhares de pessoas nas ruas das principais cidades do Egito marchando em mobilizações e protestos, não se juntam apenas para exigir a renúncia do ditador Hosni Mubarak, no poder desde 1981, e a convocação de eleições. Os protestantes, que no dia 1 de fevereiro somavam mais de 1 milhão de pessoas somente na capital do país, Cairo, demandam mudanças estruturais na sociedade egípcia, que há décadas vive sob governos ditatoriais corruptos que têm sequestrado, torturada, intimidado e assassinado opositores para se manterem no poder.
       O mar de manifestantes que acorrem às ruas principalmente nos últimos dias, talvez seja a maior na região desde a Revolução Islâmica de 1979 no Irã, que levou aproximadamente 10 milhões de pessoas às ruas, e que derrubou uma ditadura instalada pelos Estados Unidos e Inglaterra em 1953. Mesmo as manifestações iranianas no ano passado contra o resultado das eleições, possivelmente fraudadas, que reelegeram Ahmadinejad, não se comparam nem em número nem em recorrência com o que está ocorrendo no Egito. Os protestantes são formados por vários setores da sociedade egípcia: favelados urbanos, camponeses e pequenos agricultores, trabalhadores empregados e desempregados, pessoas de classe média, estudantes, etc. As principais demandas são por questões internas. Além de exigirem a renúncia do ditador, são por mudanças econômicas (fim da corrupção, por emprego, educação, saúde, etc) e por respeito aos direitos humanos (liberação dos presos políticos, direito de protestar, etc). Mas o mais importante no que está ocorrendo é que a população tem demandado essas mudanças imediatas e prementes - num país em que a população está cansada de 30 anos de exclusão, empobrecimento e alheamento completamente da participação nas questões nacionais - como parte de um anseio maior de mudar as estruturas de governo do país. Ou seja, não são meramente mobilizações pró-reformas, mas sim um movimento de massa que demanda mais do que eleições. Os egípcios querem uma verdadeira democracia, i.e, com liberdade de expressão e participação popular. Revoltas populares, não na mesma dimensão, mas com objetivos e demandas semelhantes, têm ocorrido recentemente em outros países no Oriente Médio e Note da África, como Tunísia, Yemen, Jordânia, etc. As oligarquias e pseudo-democracias na região, a sua maioria aliadas dos Estados Unidos e subservientes aos seus interesses estratégicos, estão ao menos sendo desafiadas por esses processos de revolta popular.
          No Egito, epicentro de um movimento de massa, os protestos, que, no começo estavam  transcorrendo relativamente de forma pacífica, começaram aficar mais violentos,  sobretudo a partir dos acontecimentos de quarta-feira, em que defensores do ditador, entre eles policiais, entraram em confronto com os manifestantes no Cairo, ocasionando 13 mortes.  Também há relatos de manifestantes de que em cidades como Alexandria e Suez, policiais tem acadado as manifestações. Em contrapartida, desde 25 de janeiro, quando do início das manifestações em massa, as Forças Armadas tem se recusado a enfrentar a população.
Juventude nos protestos
        Destaque deve ser dado à participação da juventude egípcia nesse movimento de massa. Participação que tem sido central. Inconformados com a falta de trabalho, oportunidades, liberdade e esperanças, os jovens formam grande parte dos dissidentes. Fato nada novo nos países árabes, onde a presença ativa e o papel de destaque da juventude nos processos de transformação social é muito comum. O que é singular no caso do Egito é o papel importante que, nos últimos anos, as comunidades de jovens ativistas blogeiros estão desempenhando no movimento de oposição. A repressão do governo está levando os jovens ao ativismo. E as redes sociais têm sido uma ferramenta não somente para expressar o descontentamento, mas um meio tanto de cobrir e noticiar os protestos quanto de conectar as pessoas no país convocando-as para atuar em solidariedade. Num país onde a censura nas mídias tradicionais é tão eficaz, a atuação descentralizada dos blogeiros vem conseguindo burlar as restrições sobre a liberdade de expressão. Eles estão usando as redes sociais para se expressar já que os espaços para contestação na mídia tradicional são quase nulos. Muitos blogeiros, entretanto, que não escondem sua identidade ou cuja identidade foi descoberta pelo governo, têm sido presos.
        Mas a repressão e brutalidade do governo com esses jovens escritores e documentaristas não é somente por causa do conteúdo do que escrevem e noticiam. O que incomoda o regime é que esses jovens se articulam via redes sociais para atuar nas ruas, articular manifestações e ir para a ação direta junto com o restante da população. Como observou um ativista e blogeiro preso pelo regime: "quebramos com a idéia de se escrever e não fazer nada. Não é somente palavra, é palavra e ação. E é isso que preocupa muito". Os blogeiros, como parte importante desse movimento de massa, além de facilitarem a conexão entre as pessoas na região, estão conectando as pessoas de outros países com as mobilizações que vêm ocorrendo. Ao noticiarem e opinarem sobre os fatos - quer estando nas ruas ou presos – e continuarem com a campanha pela liberação dos que ainda estão presos, os ativistas mantêm a comunidade internacional informada sobre os acontecimentos, contribuindo, com isso, para criar uma rede internacional de solidariedade à revolta popular e de repúdio à brutalidade do regime.

Egito e seus principais aliados
         Apesar de o movimento de massas no Egito ter por principais demandas questões internas, e não vermos imagens clássicas de protestos com queimas de bandeiras estadunidenses, não há dúvida de que a grande maioria dos egípcios que têm tomado as ruas do Cairo, Alexandria, Suez, etc., estão descontentes com a política externa do Estado egípcio de subserviência aos interesses imperiais de Washington. Certamente que se houvesse no Egito ainda que uma tênue responsabilidade democrática do Estado, a colaboração quase incondicional entre os dois Estados não seria possível.
        O começo do clientelismo dos governos egípcios tem data. Durante grande parte da Guerra Fria, o Egito era um país não alinhado com Washington, e com forte cultura de governos laicos. Temendo a aproximação do Egito com a União Soviética, em 1956, a Inglaterra e França, com apoio estadunidense, e a lançaram uma campanha militar - frustrada - com o objetivo de reassumir o controle do Canal de Suez, que tinha sido nacionalizado pelo governo de Gamal Abdel Nasser,principal líder político do pan-arabismo e opositor dos interesses dos Estados Unidos e de Israel. Contudo, somente na década de 1970, com a morte de Nasser, por um lado, e o enfraquecimento, por outro lado, do nacionalismo no país em parte por decorrência da derrota de Egito para Israel na guerra dos 6 dias em 1967,os Estados Unidos conseguiram atrair o maior país árabe para a sua órbita de influência.
         Desde então o país está alinhado com Washington e em colaboração com a ocupação israelense dos territórios palestinos. Principalmente da Faixa de Gaza, que faz fronteira com o Egito por meio da passagem de Farah, cujo bloqueio por parte do governo egípcio impede o fluxo livre de pessoas e comidas, condenando, junto com Israel, a população de Gaza - 1.5 milhões de pessoas - a um aprisionamento que já dura 5 anos. Desde 1979 - por causa do "tratado de paz" de Camp Davis, estabelecido entre Egito, Estados Unidos e Israel, primeiro tratado assinado entre um Estado árabe e Israel - o Egito passa a ser chave central para a doutrina de segurança israelense, uma vez que se posiciona como seu principal colaborador na região. Nessas últimas 3 décadas, e claro que não por coincidência, os Estados Unidos fornecem ao país, anualmente, 1.5 bilhões de dólares em ajuda militar.
       Mas afora a colaboração com Israel, o clientelismo do governo egípcio, como observa Phyllis Bennis, vem sendo central “para assegurar que o resto do mundo árabe [até a última década do século XX] permanecesse um bastião pró-USA". Em 1991, por exemplo, o Egito foi fundamental para que a Casa Branca conseguisse formar uma coalizão de países árabes para se juntar na guerra com Saddam, apesar da completa oposição da população egípcia. Para assegurar o comprometimento do ditador Mubarak, Washington perdoou 50% do débito que o país possuía com os EUA. E após a guerra ao “terror” lançada por Bush filho e os neoconservadores após 11 de setembro, o Egito permite que prisioneiros do governo norteamericano sejam interrogados em seu solo.
        As incertezas sobre o impacto que os acontecimentos no Egito terão sobre a "amigável "relação entre o país e Israel caso o regime de Mubarak caia - o que é quase inevitável - já preocupam o Estado israelense. Um ex-embaixador de Israel no Egito saiu em defesa aberta da ditadura de Mubarak, sustentando, sem o mínimo de escrúpulo, que "as únicas pessoas no Egito comprometidas com a paz são as pessoas no círculo de Mubarak, e se o próximo presidente não for um deles, nós [Israel] teremos problemas". A vice-primeira ministra Silvan Shalom foi ainda mais incisiva, e disse que "se regimes que fazem fronteira com Israel fossem substituídos por sistemas democráticos, a segurança nacional de Israel poderia ser significativamente ameaçada".
        Quanto aos pronunciamentos "pró-manifestantes" das principais autoridades estadunidenses, não nos iludamos, pois é próprio da política imperial dos Estados Unidos brincar com palavras duplas. Embora o presidente Barak Obama tenha manifestado aparente apoio ao estabelecimento de "um governo que responda às aspirações do povo egípcio", e a Secretária de Estado "pedido" por "uma mudança que responderá aos descontentamentos do povo egípcio", o fato é que o governo de Mubarak tem sido, como discorri, peça central da estratégia estadunidense para a região. Nos 30 anos de governo do ditador, foi com armas "made in USA" que Barak matou protestantes e dissidentes, e preservou a “estabilidade” interna, palavra tão cara aos presidentes norteamericanos.
        Pode ser que, em parte, a retórica de apoio aos protestos seja fruto da constatação do governo dos Estados Unidos de que as oligarquias e pseudo-democracias fantoches alinhadas com a Casa Branca estão mais enfraquecidas em função do recrudescimento das dissidências populares, e que, por isso, os interesses do império estadunidense na região podem estar ameaçados. Contudo não meçamos o posicionamento do império a partir de poucas frases. Em face das críticas ferrenhas das mesmas autoridades ao governo iraniano e à brutalidade contra as vozes dissidentes no país dos Ayatollahs, críticas essas que, como sabemos, em nada têm a ver com preocupações democráticas, e são simples retórica do governo estadunidense para manufaturar consenso contra governos que não seguem as ordens de Washington, cairia muito mal aos EUA se não se posicionassem publicamente de forma semelhante quanto ao que vem ocorrendo no Egito, dado a dimensão dos acontecimentos. Mas daí inferir que esse “apoio” ao descontentamento popular no Egito sugere que o império esteja mostrando sinais de reconhecimento do enfraquecimento da sua influência nos rumos dos acontecimentos políticos na região e que, além disso, aponta para o começo de uma revisão de uma estratégia que segue a mesma desde a Guerra Fria, soa inocente demais. Basta atentar para a presença militar estadunidense na região e as ameaças ao Irã para evitamos tal raciocínio.
          É muito mais provável que Washington tema que um movimento de massa dessa proporção sirva de exemplo e estímulo para a população de ditaduras na região alinhadas com a Casa Branca, como as monarquias saudita e jordanianas. Alguma dúvida de que os apoios públicos do rei saudita Abdullah e do rei jordaniano Abdullah II a Mubarak foram feitos sem o consentimento de Washington? Os receios diante da "instabilidade" que a situação política egípcia provoca na região, levaram até mesmo o presidente da Autoridade Palestina, segundo o Observatório dos Direitos Humanos, a autorizar que forças policiais em Ramallah, na Cisjordânia, rechaçassem uma passeata de palestinos em solidariedade ao levante popular no Egito.
         É muito cedo para dizer se a antiga ordem de alianças no Oriente Médio está acabando, e se, como consequência, os Estados Unidos estão dispostos a pensar novas estratégias de atuação na região. Os impactos das transformações em curso sobre o colaboracionismo entre Washington, Cairo e Tel Aviv podem, a médio prazo, forçar uma mudança na geopolítica da região. Repito, "podem". Mas é pouco provável que um governo de transição que venha a suceder a queda de Mubarak - mesmo que num primeiro momento, afrouxe os laços com Israel para atender as demandas da população - rompa com Washington . E isso basicamente por duas razões.
         Primeiro que, como já disse, as principais demandas da população estão voltadas para questões internas; e, segundo, que o governo interino e, depois, o futuro governo eleito - provavelmente formado por uma coalizão da atual oposição – estará ciente dos custos de um tal posicionamento de rompimento com Israel e a Casa Branca. Aos olhos das elites políticas oposicionistas, eles seriam muito maiores que os benefícios. O complexo militar egípcio depende, como já falamos, profundamente da ajuda militar estadunidense. Numa região de grande tensão como o Oriente Médio, sabemos quão importante é para um Estado com a influência regional do Egito estar bem preparado e equipado para conflitos. Além do mais, sempre que em um levante popular as Forças Armadas se recusam a enfrentar a população e defender o governo, o seu poder de barganha nas negociações com o governo que sucede a queda do anterior aumenta consideravelmente. Não me parece que os militares egípcios estarão dispostos a perder 1.5 bilhões em ajuda anual. Pois, caso seja mantido como condição para que o Egito continue recebendo essa ajuda a continuação da colaboração com Israel, é bem provável que os militares pressionem o novo governo a manter as boas relações com seu vizinho. Se depender das elites políticas, e falo também da elite oposicionista, mesmo um novo governo não quebrará as regras do jogo firmadas em Camp Davis.


Poder popular.
      O que é claro até agora é que questões referentes à política externa são questões secundárias nas reivindicações dos manifestantes que ocupam as ruas e praças das cidades. Os protextos são fundamentalmente uma revolta por pão, trabalho e liberdade.
     Mas caso as demandas por uma mudança fundamental das estruturas de governo se concretizem, e o povo egípcio venha a ter uma participação incisiva nos rumos do Estado, as relações de subserviência do Estado egípcio com o imperialismo estadunidense e o colaboracionismo com Israel poderão, sim, ser afetadas.
        O que estamos vendo nas ruas do Egito, e de forma mais pulsante na sua capital, é a força de uma população cansada de viver, por gerações, sob a brutalidade de regimes despóticos, que excluíram por décadas a população de qualquer participação política. É um movimento de massa em batalha contra o governo. E nesta batalha o governo parece estar perdendo. Não é uma revolta popular isolada. Dissidências populares já surgiram em outros país.
      Se esses levantes serão capazes de criar poder popular forte e adquirir proporções que impulsionem uma trajetória revolucionária no Norte da África e Oriente Médio que fuja completamente ao controle dos governos e abalem os interesses imperialistas na região, somente os futuros desdobramentos dos acontecimentos nos dirão. Por hora, cabe a nós completa solidariedade com o povo na região que marcha e clama por liberdade e participação, e torcer para que o poder popular sufoque a tirania das minorias que governam.



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