domingo, 6 de fevereiro de 2011

Os levantes populares em países árabes: uma luta por valores universais.

O poder da revolta popular em curso no Egito vem provocando o medo nos poderes ocidentais e em Israel de que a insurreição, que tem levado às ruas quase 2 milhões de pessoas somente no Cairo, capital do país, leve a uma nova alternativa política que abale a ordem geopolítica da região. Todos os estereótipos proferidos por autoridades ocidentais e israelenses e pela grande mídia desses países de que à queda de Mubarak sucederia um regime fundamentalista islâmico antagonista à Israel, de que as manifestações são lideradas pela Irmandade Muçulmana, maior partido de oposição à ditadura, em suma, de que a população nos países islâmicos prefere ditaduras fundamentalistas, são palavrórios ideológicas para proteger os interesses das potências ocidentais, que temem que essa onda de manifestações se estenda para toda a região.

As palavras de Tony Blair de que o ocidente precisa gerenciar a situação de transição é a síntese desses slogans repetidos sem cessar. A tentativa é de construir a imagem de que o mundo islâmico não é afeito à democracia burguesa, e que, portanto, antes uma ditadura que mantenha "a estabilidade e segurança" na região a um fundamentalismo avesso "às benesses do ocidente".

Ora, sabemos que todo esse teatro ideológico de cenas estereotipadas, que repetem a narrativa falsa de que as populações islâmicas são, na sua maioria, fanáticos que seguem cegamente líderes religiosos, não passa de clichês manufaturados para servir aos interesses de alguns países ocidentais e de Israel e na região.

Os levantes populares no Egito e Tunísia mais uma vez desnudam a mentira desse discurso hegemônico no ocidente. Por isso a fala de Blair pode ser traduzida nos seguintes termos: "aceitamos mudanças desde que a situação global permaneça a mesma, pois democracia no oriente põe em risco nossos interesses".

As revoltas populares marcham e clamam por justiça social e liberdade. Os acontecimentos no Norte da África e Oriente Médio, todos em países há décadas sob regimes ditatoriais alinhados com as potências ocidentais, resultam fundamentalmente de uma questão social. As pessoas demandam dignidade, direitos humanos e justiça econômica. Demandas que refutam os argumentos do multiculturalismo e de algumas baboseiras pós-modernas que negam a universalidade de valores como liberdade e justiça. As revoluções em curso são justamente pela realização de valores universais: justiça social, autonomia , liberdade, etc. Por isso a obrigatoriedade, por um lado, da nossa solidariedade com as revoltas, e, por outro, em procurar desmascarar as ideologias e pseudo-teorias relativistas, que somente servem para legitimar o imperialismo e desumanizam outros povos.

A propaganda vigente apresenta a Irmandade Muçulmana, partido oposicionista mais popular no Egito, fundado em 1928 contra o nacionalismo secular, como estando por tras das manifestações. E isso é uma mentira. O que ocorre é justamente o oposto. Tamanha é a predominância das exigências universais da sociedade egípcia, que lideranças do partido, em pronunciamentos públicos, estão tendo que falar a linguagem da democracia, dos direitos humanos, da liberdade, etc. Não são os religiosos nem outras lideranças da oposição que estão impulsionando as massas, são as próprias massas que estão carregando a oposição com elas.

Além da autonomia das manifestações em relação aos partidos oposicionistas, o fato é também que esses partidos não são um bloco monolítico, como a propaganda ocidental os apresenta. Há tendências diversas, por exemplo, dentro da Irmandade Muçulmana. Há uma tendência alinhada com a interpretação saudita do alcorão, mas há outra próxima da interpretação mais secularista hegemônica na Turquia. Pouco se fala também, por razões claras, das origens do partido e das transformações pelas quais passou nos seus mais de 80 anos de existência. Na sua origem, a Irmandade Muçulmana era um movimento ante-colonialista e contra a repressão. E muito do crescimento do setor mais radical se dever, em parte, segundo Tariq Ramadan, intelectual egípcio, ao fato de que quando Nasser subiu ao poder, numa plataforma de nacionalismo laico, muitos integrantes da Irmandade foram presos, assassinados e exilados. E, em decorrência desses exílios, a Irmandade cresceu em outros países, adquirindo características diferentes, sendo impossível concebê-la como um partido de orientação única e imutável.

Todo esse acobertamento confirma a manobra das propagandas no ocidente de simplificar uma realidade política e social multifacetada, como a do Egito, a meia dúzia de estereótipos reproduzidos sistematicamente em todos os meios de informação hegemônicos, e apresentados como verdades "auto-evidentes". E tudo para justificar o apoio a ditaduras em nome da segurança e estabilidade, que não são outras senão segurança e estabilidade para o livre curso do imperialismo na região.

A dissidência popular no Egito e Tunísia mostra sinais claros de que não quer nem governos fundamentalistas nem pseudo-democracias fantoches . A democracia burguesa dos países ocidentais não impediu - e não pensem que isso seja ignorado pelas populações árabes - que nesses países o poder, governo e riqueza estivessem nas mãos de uma pequena minoria, que parcelas significativas da população estão desempregadas, marginalizadas e perderam quase todos os benefícios conquistados. Sobretudo a partir da crise de 2008, os países ocidentais já não conseguem esconder do mundo que a democracia burguesa faliu, e que nunca foi além de uma democracia política, muito longe de se realizar economicamente. A xenofobia e o crescimento da direita e de orientações neofascistas nos Estados Unidos e países europeus, só podem fazer um árabe rir quando qualquer autoridade ocidental fala de Estado laico. Além disso, que fundamento e moral há em países como os Estados Unidos, onde 30% das pessoas ainda acreditam em fantasmas, e comprometimentos religiosos de políticos e seus partidos determinam eleições, para asseverar que as populações dos países árabes preferem ditaduras fundamentalistas? Não seria grande parte da população ocidental muito mais afeita a ilusões e mentiras, sobretudo as falsidades que o aparato de propagando, tão sofisticado nesses países, forja sobre os países árabes e o resto do mundo?

O que guia os protestos em massa no Egito e Tunísia são demandas por direitos universais em face do desemprego em massa, pobreza, corrupção, injustiça econômica, autoritarismo, repressão, falta de liberdade, etc. E a população sinaliza saber que somente as quedas de Ben Ali e Mubarak não são o suficiente. E que só com uma política de "redistribuição de renda e rompimento com a ditadura do mercado e o imperialismo"( http://www.anarkismo.net/article/18558 ) será possível materializar a justiça social e democracia ansiadas.

A insurreição na Tunísia derrubou a ditadura de Ben Ali, mas as lideranças em torno de governo transitório a ser formado por uma coalizão de partidos, inclusive com políticos ligados ao ex-ditador - que prometeram eleições para daqui 2 meses - pretendem acalmar uma revolta que é social, e solucioná-la em termos políticos. Quando autoridades ocidentais propositalmente falam em dirigir a situação de transição é por se preocuparem em, não podendo evitar o levante popular, ao menos evitar que ele se transforme em revolução social. Ou seja, não dando para manter o ditador, que seja estabelecida uma pseudo-democracia subserviente capaz de acalmar as massas.

Por isso que o maior desafio colocado às populações desses países é, com a derrubada de uma ditadura, como conseguir que uma insurreição, fundamentalmente social, não termine sendo abafada por uma mudança apenas política: elege-se um novo governo, forma-se uma nova elite política – na maioria das vezes nem tão nova assim - e as condições sociais continuam as mesmas.

Por essa razão que a luta por liberdade, justiça social e autonomia apenas começa com a derrubada de um tirano. As populações do Egito e Tunísia vêm demonstrando fôlego para continuarem suas demandas e manterem a luta até que de fato a democracia seja econômica e social, e, portanto, uma revolução de fato, pois somente o povo organizado será capaz de resolver os problemas que enfrentam seus países.

Os levantes na Tunísia e Egito, em menor escala em outros países da região, são uma luta que fala a todos os oprimidos. Pela universalidade de suas demandas, o que se presencia no Norte da África e Oriente Médio é a força social que o poder popular pode ter, onde quer que ele surja.

Toda solidariedade aos levantes populares nos países árabes! Todo poder ao povo organizado!
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quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Transformação social no Egito: entre o imperialismo e a tirania.

       As milhares de pessoas nas ruas das principais cidades do Egito marchando em mobilizações e protestos, não se juntam apenas para exigir a renúncia do ditador Hosni Mubarak, no poder desde 1981, e a convocação de eleições. Os protestantes, que no dia 1 de fevereiro somavam mais de 1 milhão de pessoas somente na capital do país, Cairo, demandam mudanças estruturais na sociedade egípcia, que há décadas vive sob governos ditatoriais corruptos que têm sequestrado, torturada, intimidado e assassinado opositores para se manterem no poder.
       O mar de manifestantes que acorrem às ruas principalmente nos últimos dias, talvez seja a maior na região desde a Revolução Islâmica de 1979 no Irã, que levou aproximadamente 10 milhões de pessoas às ruas, e que derrubou uma ditadura instalada pelos Estados Unidos e Inglaterra em 1953. Mesmo as manifestações iranianas no ano passado contra o resultado das eleições, possivelmente fraudadas, que reelegeram Ahmadinejad, não se comparam nem em número nem em recorrência com o que está ocorrendo no Egito. Os protestantes são formados por vários setores da sociedade egípcia: favelados urbanos, camponeses e pequenos agricultores, trabalhadores empregados e desempregados, pessoas de classe média, estudantes, etc. As principais demandas são por questões internas. Além de exigirem a renúncia do ditador, são por mudanças econômicas (fim da corrupção, por emprego, educação, saúde, etc) e por respeito aos direitos humanos (liberação dos presos políticos, direito de protestar, etc). Mas o mais importante no que está ocorrendo é que a população tem demandado essas mudanças imediatas e prementes - num país em que a população está cansada de 30 anos de exclusão, empobrecimento e alheamento completamente da participação nas questões nacionais - como parte de um anseio maior de mudar as estruturas de governo do país. Ou seja, não são meramente mobilizações pró-reformas, mas sim um movimento de massa que demanda mais do que eleições. Os egípcios querem uma verdadeira democracia, i.e, com liberdade de expressão e participação popular. Revoltas populares, não na mesma dimensão, mas com objetivos e demandas semelhantes, têm ocorrido recentemente em outros países no Oriente Médio e Note da África, como Tunísia, Yemen, Jordânia, etc. As oligarquias e pseudo-democracias na região, a sua maioria aliadas dos Estados Unidos e subservientes aos seus interesses estratégicos, estão ao menos sendo desafiadas por esses processos de revolta popular.
          No Egito, epicentro de um movimento de massa, os protestos, que, no começo estavam  transcorrendo relativamente de forma pacífica, começaram aficar mais violentos,  sobretudo a partir dos acontecimentos de quarta-feira, em que defensores do ditador, entre eles policiais, entraram em confronto com os manifestantes no Cairo, ocasionando 13 mortes.  Também há relatos de manifestantes de que em cidades como Alexandria e Suez, policiais tem acadado as manifestações. Em contrapartida, desde 25 de janeiro, quando do início das manifestações em massa, as Forças Armadas tem se recusado a enfrentar a população.
Juventude nos protestos
        Destaque deve ser dado à participação da juventude egípcia nesse movimento de massa. Participação que tem sido central. Inconformados com a falta de trabalho, oportunidades, liberdade e esperanças, os jovens formam grande parte dos dissidentes. Fato nada novo nos países árabes, onde a presença ativa e o papel de destaque da juventude nos processos de transformação social é muito comum. O que é singular no caso do Egito é o papel importante que, nos últimos anos, as comunidades de jovens ativistas blogeiros estão desempenhando no movimento de oposição. A repressão do governo está levando os jovens ao ativismo. E as redes sociais têm sido uma ferramenta não somente para expressar o descontentamento, mas um meio tanto de cobrir e noticiar os protestos quanto de conectar as pessoas no país convocando-as para atuar em solidariedade. Num país onde a censura nas mídias tradicionais é tão eficaz, a atuação descentralizada dos blogeiros vem conseguindo burlar as restrições sobre a liberdade de expressão. Eles estão usando as redes sociais para se expressar já que os espaços para contestação na mídia tradicional são quase nulos. Muitos blogeiros, entretanto, que não escondem sua identidade ou cuja identidade foi descoberta pelo governo, têm sido presos.
        Mas a repressão e brutalidade do governo com esses jovens escritores e documentaristas não é somente por causa do conteúdo do que escrevem e noticiam. O que incomoda o regime é que esses jovens se articulam via redes sociais para atuar nas ruas, articular manifestações e ir para a ação direta junto com o restante da população. Como observou um ativista e blogeiro preso pelo regime: "quebramos com a idéia de se escrever e não fazer nada. Não é somente palavra, é palavra e ação. E é isso que preocupa muito". Os blogeiros, como parte importante desse movimento de massa, além de facilitarem a conexão entre as pessoas na região, estão conectando as pessoas de outros países com as mobilizações que vêm ocorrendo. Ao noticiarem e opinarem sobre os fatos - quer estando nas ruas ou presos – e continuarem com a campanha pela liberação dos que ainda estão presos, os ativistas mantêm a comunidade internacional informada sobre os acontecimentos, contribuindo, com isso, para criar uma rede internacional de solidariedade à revolta popular e de repúdio à brutalidade do regime.

Egito e seus principais aliados
         Apesar de o movimento de massas no Egito ter por principais demandas questões internas, e não vermos imagens clássicas de protestos com queimas de bandeiras estadunidenses, não há dúvida de que a grande maioria dos egípcios que têm tomado as ruas do Cairo, Alexandria, Suez, etc., estão descontentes com a política externa do Estado egípcio de subserviência aos interesses imperiais de Washington. Certamente que se houvesse no Egito ainda que uma tênue responsabilidade democrática do Estado, a colaboração quase incondicional entre os dois Estados não seria possível.
        O começo do clientelismo dos governos egípcios tem data. Durante grande parte da Guerra Fria, o Egito era um país não alinhado com Washington, e com forte cultura de governos laicos. Temendo a aproximação do Egito com a União Soviética, em 1956, a Inglaterra e França, com apoio estadunidense, e a lançaram uma campanha militar - frustrada - com o objetivo de reassumir o controle do Canal de Suez, que tinha sido nacionalizado pelo governo de Gamal Abdel Nasser,principal líder político do pan-arabismo e opositor dos interesses dos Estados Unidos e de Israel. Contudo, somente na década de 1970, com a morte de Nasser, por um lado, e o enfraquecimento, por outro lado, do nacionalismo no país em parte por decorrência da derrota de Egito para Israel na guerra dos 6 dias em 1967,os Estados Unidos conseguiram atrair o maior país árabe para a sua órbita de influência.
         Desde então o país está alinhado com Washington e em colaboração com a ocupação israelense dos territórios palestinos. Principalmente da Faixa de Gaza, que faz fronteira com o Egito por meio da passagem de Farah, cujo bloqueio por parte do governo egípcio impede o fluxo livre de pessoas e comidas, condenando, junto com Israel, a população de Gaza - 1.5 milhões de pessoas - a um aprisionamento que já dura 5 anos. Desde 1979 - por causa do "tratado de paz" de Camp Davis, estabelecido entre Egito, Estados Unidos e Israel, primeiro tratado assinado entre um Estado árabe e Israel - o Egito passa a ser chave central para a doutrina de segurança israelense, uma vez que se posiciona como seu principal colaborador na região. Nessas últimas 3 décadas, e claro que não por coincidência, os Estados Unidos fornecem ao país, anualmente, 1.5 bilhões de dólares em ajuda militar.
       Mas afora a colaboração com Israel, o clientelismo do governo egípcio, como observa Phyllis Bennis, vem sendo central “para assegurar que o resto do mundo árabe [até a última década do século XX] permanecesse um bastião pró-USA". Em 1991, por exemplo, o Egito foi fundamental para que a Casa Branca conseguisse formar uma coalizão de países árabes para se juntar na guerra com Saddam, apesar da completa oposição da população egípcia. Para assegurar o comprometimento do ditador Mubarak, Washington perdoou 50% do débito que o país possuía com os EUA. E após a guerra ao “terror” lançada por Bush filho e os neoconservadores após 11 de setembro, o Egito permite que prisioneiros do governo norteamericano sejam interrogados em seu solo.
        As incertezas sobre o impacto que os acontecimentos no Egito terão sobre a "amigável "relação entre o país e Israel caso o regime de Mubarak caia - o que é quase inevitável - já preocupam o Estado israelense. Um ex-embaixador de Israel no Egito saiu em defesa aberta da ditadura de Mubarak, sustentando, sem o mínimo de escrúpulo, que "as únicas pessoas no Egito comprometidas com a paz são as pessoas no círculo de Mubarak, e se o próximo presidente não for um deles, nós [Israel] teremos problemas". A vice-primeira ministra Silvan Shalom foi ainda mais incisiva, e disse que "se regimes que fazem fronteira com Israel fossem substituídos por sistemas democráticos, a segurança nacional de Israel poderia ser significativamente ameaçada".
        Quanto aos pronunciamentos "pró-manifestantes" das principais autoridades estadunidenses, não nos iludamos, pois é próprio da política imperial dos Estados Unidos brincar com palavras duplas. Embora o presidente Barak Obama tenha manifestado aparente apoio ao estabelecimento de "um governo que responda às aspirações do povo egípcio", e a Secretária de Estado "pedido" por "uma mudança que responderá aos descontentamentos do povo egípcio", o fato é que o governo de Mubarak tem sido, como discorri, peça central da estratégia estadunidense para a região. Nos 30 anos de governo do ditador, foi com armas "made in USA" que Barak matou protestantes e dissidentes, e preservou a “estabilidade” interna, palavra tão cara aos presidentes norteamericanos.
        Pode ser que, em parte, a retórica de apoio aos protestos seja fruto da constatação do governo dos Estados Unidos de que as oligarquias e pseudo-democracias fantoches alinhadas com a Casa Branca estão mais enfraquecidas em função do recrudescimento das dissidências populares, e que, por isso, os interesses do império estadunidense na região podem estar ameaçados. Contudo não meçamos o posicionamento do império a partir de poucas frases. Em face das críticas ferrenhas das mesmas autoridades ao governo iraniano e à brutalidade contra as vozes dissidentes no país dos Ayatollahs, críticas essas que, como sabemos, em nada têm a ver com preocupações democráticas, e são simples retórica do governo estadunidense para manufaturar consenso contra governos que não seguem as ordens de Washington, cairia muito mal aos EUA se não se posicionassem publicamente de forma semelhante quanto ao que vem ocorrendo no Egito, dado a dimensão dos acontecimentos. Mas daí inferir que esse “apoio” ao descontentamento popular no Egito sugere que o império esteja mostrando sinais de reconhecimento do enfraquecimento da sua influência nos rumos dos acontecimentos políticos na região e que, além disso, aponta para o começo de uma revisão de uma estratégia que segue a mesma desde a Guerra Fria, soa inocente demais. Basta atentar para a presença militar estadunidense na região e as ameaças ao Irã para evitamos tal raciocínio.
          É muito mais provável que Washington tema que um movimento de massa dessa proporção sirva de exemplo e estímulo para a população de ditaduras na região alinhadas com a Casa Branca, como as monarquias saudita e jordanianas. Alguma dúvida de que os apoios públicos do rei saudita Abdullah e do rei jordaniano Abdullah II a Mubarak foram feitos sem o consentimento de Washington? Os receios diante da "instabilidade" que a situação política egípcia provoca na região, levaram até mesmo o presidente da Autoridade Palestina, segundo o Observatório dos Direitos Humanos, a autorizar que forças policiais em Ramallah, na Cisjordânia, rechaçassem uma passeata de palestinos em solidariedade ao levante popular no Egito.
         É muito cedo para dizer se a antiga ordem de alianças no Oriente Médio está acabando, e se, como consequência, os Estados Unidos estão dispostos a pensar novas estratégias de atuação na região. Os impactos das transformações em curso sobre o colaboracionismo entre Washington, Cairo e Tel Aviv podem, a médio prazo, forçar uma mudança na geopolítica da região. Repito, "podem". Mas é pouco provável que um governo de transição que venha a suceder a queda de Mubarak - mesmo que num primeiro momento, afrouxe os laços com Israel para atender as demandas da população - rompa com Washington . E isso basicamente por duas razões.
         Primeiro que, como já disse, as principais demandas da população estão voltadas para questões internas; e, segundo, que o governo interino e, depois, o futuro governo eleito - provavelmente formado por uma coalizão da atual oposição – estará ciente dos custos de um tal posicionamento de rompimento com Israel e a Casa Branca. Aos olhos das elites políticas oposicionistas, eles seriam muito maiores que os benefícios. O complexo militar egípcio depende, como já falamos, profundamente da ajuda militar estadunidense. Numa região de grande tensão como o Oriente Médio, sabemos quão importante é para um Estado com a influência regional do Egito estar bem preparado e equipado para conflitos. Além do mais, sempre que em um levante popular as Forças Armadas se recusam a enfrentar a população e defender o governo, o seu poder de barganha nas negociações com o governo que sucede a queda do anterior aumenta consideravelmente. Não me parece que os militares egípcios estarão dispostos a perder 1.5 bilhões em ajuda anual. Pois, caso seja mantido como condição para que o Egito continue recebendo essa ajuda a continuação da colaboração com Israel, é bem provável que os militares pressionem o novo governo a manter as boas relações com seu vizinho. Se depender das elites políticas, e falo também da elite oposicionista, mesmo um novo governo não quebrará as regras do jogo firmadas em Camp Davis.


Poder popular.
      O que é claro até agora é que questões referentes à política externa são questões secundárias nas reivindicações dos manifestantes que ocupam as ruas e praças das cidades. Os protextos são fundamentalmente uma revolta por pão, trabalho e liberdade.
     Mas caso as demandas por uma mudança fundamental das estruturas de governo se concretizem, e o povo egípcio venha a ter uma participação incisiva nos rumos do Estado, as relações de subserviência do Estado egípcio com o imperialismo estadunidense e o colaboracionismo com Israel poderão, sim, ser afetadas.
        O que estamos vendo nas ruas do Egito, e de forma mais pulsante na sua capital, é a força de uma população cansada de viver, por gerações, sob a brutalidade de regimes despóticos, que excluíram por décadas a população de qualquer participação política. É um movimento de massa em batalha contra o governo. E nesta batalha o governo parece estar perdendo. Não é uma revolta popular isolada. Dissidências populares já surgiram em outros país.
      Se esses levantes serão capazes de criar poder popular forte e adquirir proporções que impulsionem uma trajetória revolucionária no Norte da África e Oriente Médio que fuja completamente ao controle dos governos e abalem os interesses imperialistas na região, somente os futuros desdobramentos dos acontecimentos nos dirão. Por hora, cabe a nós completa solidariedade com o povo na região que marcha e clama por liberdade e participação, e torcer para que o poder popular sufoque a tirania das minorias que governam.



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segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Assistam a esta série.

          Compartilho com os frequentadores do blog uma série recente do canal de TV Aljazeera em inglês. A série, com cada episódio de aproximadamente 20 minutos, mostra trabalhos manuais extremamente pesados, que ainda ocorrem em vários lugares do mundo, apesar do atual estágio tecnológico do capitalismo. Cada capítulo da séria inicia com a seguinte pergunta: "em nossa era tecnológica, o trabalho manual pesado está desaparecendo ou apenas se tornando invisível?" Com essa pergunta somos levados a uma mina de carvão na Ucrânia, onde trabalhadores autônomos continuam, manualmente, explorando a mina que foi abandonada desde o fim do comunismo no país; a trabalhadores na Indonésia que sobrevivem extraindo rochas de ácido sulfúrico de um vulcão na ilha de Java; a um porto no Paquistão para onde navios velhos são enviados para serem desmontados e vendidos como sucata. Com quase nada de ajuda de maquinário, os trabalhadores desmontam o navio inteiro apenas com um maçarico em mãos, etc. 
        Aos que assistirem à série, peço que a divulguem, pois séries como essa, que  confrontam  a fabricação da invisibilidade da exploração do trabalho humano na sua forma mais tradicional, devem ser assistidas pelo maior número possível de pessoas. 


 

  

    

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Solidariedade contra o golpismo na América Latina

            O pronunciamento imediato dos países membros da UNASUL (União das Nações Sul-Americanas) condenando a tentativa de golpe de Estado no Equador demonstra o comprometimento da maioria dos governos latino-americanos com a democracia e também sinaliza que existe solidariedade entre os Estados contra o golpismo na região . Mesmo que a correlação de forças no Equador não tivesse pendido a favor do governo de Rafael Corrêa, e eventualmente as forças armadas e a polícia tivessem concretizado o golpe, como ocorreu em Honduras, o posicionamento dos países vizinhos, que às pressas se reuniram na Argentina e logo enviaram uma comitiva de chanceleres à Quito como apoio ao governo, teria ainda assim sido de grande significação e deixaria as forças golpistas equatorianas isoladas.
             A importância central da solidariedade entre os Estados sul-americanos contra o golpismo e o imperialismo é que ela  impulsiona e fortalece a solidariedade entre os movimentos sociais e partidos de esquerda em todo a região contra o fantasma dos golpes civil-militares. O apoio externo aos movimentos sociais do país sob ameaça aumenta a combatividade desses movimentos e aprofunda a experiência democrática, uma vez que aproxima e integra as bases sociais responsáveis pelas transformações que vêm ocorrendo na última década na América Latina. Dos 4 golpes arquitetados nos últimos dez anos, apenas o em Honduras se concretizou, apesar da mobilização e resistência da sociedade hondurenha. Na Venezuela em 2002, não fossem milhares de pessoas nas ruas e em frente ao Palácio de MiraFlores exigindo o retorno de Chávez, certamente que o golpe teria ocorrido. Também em 2008 a resistência popular e seu apoio ao governo de Evo Morales na Bolívia foram fundamentais para que parte da elite boliviana não desestabilizasse o governo com usas ameaças separatistas. Do mesmo modo no Equador na última quinta-feira, quando houve mobilização social contra a tentativa de golpe então em curso.
          Cada vez mais o papel dos blocos regionais será de  importância central para evitar que governos eleitos democraticamente e comprometidos com amplas reformas sociais ou até mesmo com um projeto de socialismo democrático, como no caso da Venezuela e Bolívia, sejam desestabilizados, ao ponto de caírem,  por forças de direita internas em conluio com o imperialismo estadunidense. O fato da dificuldade de derrubar os atuais governos democráticos de esquerda na região mostra que já não é tão fácil arquitetar um golpe como em décadas anteriores, sem que os países vizinhos manifestem repúdio ao golpe e tomem conjuntamente algumas decisões estratégicas para conter a sua consolidação. Hoje os impactos de uma violação da legalidade democrática num país da América Latina logo se estendem para além das fronteiras da nação, e chamam a atenção da opinião pública, dos países membros dos blocos de integração regional e de órgãos internacionais. A atual correlação de forças, com a maioria dos países latino-americanos impulsionando uma maior unidade econômica entre si, e, como consequência, consolidando uma superação da tradicional submissão econômica e ideológica aos Estados Unidos e à sua intenção de consolidar o neoliberalismo aqui por meio de tratados unilaterais de livre-comércio norte-sul, evidencia cada vez mais que os países da região não aceitam mais o rótulo de quintal de Washington, e que, mesmo nos marcos do capitalismo, como no Brasil e Argentina, são capazes de, no cenário internacional, fazer valer os seus interesses como blocos integrados.
             Contudo, os EUA não aceitam que estão perdendo terreno na região, e junto com forças golpistas latino-americanas, as mesmas por traz da onda de golpes que ocorreram entre as décadas de 60, 70 e 80 do século passado e as únicas que se beneficiam de um alinhamento de submissão com Washington, tentam desestabilizar a região para, sobretudo, derrubar os países que têm mostrado ser possível, democraticamente, construir condições materiais para uma transformação social profunda cujo horizonte seja o socialismo. Quer acreditemos ou não que isso seja possível, o fato é que esses países têm enraivecido Washington, que não vem medindo esforços para financiar e apoiar a desestabilização dos seus governos. Sabe-se que a tentativa frustrada de golpe na Venezuela e o golpe em Honduras tiveram apoio estadunidense, quer por meio de seus serviços de inteligência, quer pela USAID (sigla em inglês para Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional), que tem um histórico de financiamento de partidos e grupos dos países alvo que se opõem aos seus governos. Não é de se esperar cenário diferente no caso do Equador, onde setores da polícia e das forças armadas - os que tentaram dar o golpe - têm relações próximas com membros da embaixada norte-americana em Quito e com órgãos de inteligência estadunidenses. Quando Chávez diz que por traz das forças de direita nos países da ALBA (Aliança Bolivariana para as Américas) e das suas tentativas de golpe está os Estados Unidos, não é paranóia, e tampouco uma jogada política do governo venezuelano. A Venezuela é de fato o Estado sob mais ameaças retóricas e concretas de Washington. O país, que faz fronteira com a Colômbia - país em parte sob ocupação dos Estados Unidos - vem há anos sofrendo a infiltração em seu território de paramilitares financiados pelo governo Colombiano e pelos EUA, com o intuito de desestabilizar o governo Chávez e fazer da Venezuela a principal rota da internacionalização da droga produzida na Colômbia, fazendo o país passar por Estado que financia o narcotráfico. Com a  soberania venezuelana sob ameaça concreta, as preocupações de Chávez são no mínimo razoáveis.
              Por isso que quanto mais países progressistas houver na região maior serão as dificuldades de que o golpismo tome força novamente na América Latina. Sabemos que para os Estados Unidos a democracia só interessa em um país em sua área de influência se o governo desse país obedecer aos ditames de Washington. E que tão logo um governo eleito contesta seriamente essa submissão, o lema é: antes um regime autoritário que siga as ordens da Casa Branca. Tem sido assim desde a guerra fria e continua sendo até agora, basta atentar para os exemplos mais gritantes, que são as relações amigáveis dos EUA com ditaduras alinhadas no Oriente Médio. Para o imperialismo norte-americano na América Latina,  qualquer proximidade entre democracia e autonomia sempre será uma ameaça.
            Quanto mais forte a integração entre os países e os povos na América Latina maior serão as dificuldades de que o golpismo se torne a regra e não a exceção. Se Honduras nos assombra com o reaparecimento dos horrores do autoritarismo e terrorismo de Estado, que à revelia de resistência popular, provoca perseguições, torturas, assassinatos e desaparecimentos, a Venezuela e o Equador, em contrapartida, mostram para o imperialismo que não aceitaremos a repetição dos horrores de regimes ditatoriais conduzidos ao poder sob supervisão de administrações republicanas e democratas. O continuado papel imperialista dos Estados Unidos na região mesmo após o fim do bloco socialista apenas torna mais escancarado os objetivos do império, uma vez que o discurso da ameaça comunista em seu quintal já não existe mais. O que os Estados Unidos não querem é que os rumos políticos e econômicos nos países da região se afastem do clientelismo e alinhamento estrito com Washington.
           Assim, a cada governo progressista eleito ou reeleito na região acresce um peso a mais na correlação de forças para o lado da autonomia e do aprofundamento da democracia na América Latina. O repúdio do presidente Lula à tentativa de golpe no Equador e o papel significativa do Brasil nos últimos oito anos para o fortalecimento da integração regional e respeito à soberania dos seus vizinhos, revela que, no plano internacional, o governo petista se diferenciou em muito do governo anterior. Basta lembrar que umas das críticas de Alckmin - quando candidato à presidência em 2006 - à política externa do governo Lula  foi o fato de o Brasil não ter agido, segundo ele, duramente com a Bolívia em relação à crise do gás, quando o governo de Evo Morales nacionalizou os hidrocarbonetos. O governo brasileiro agiu como deveria agir, respeitando a soberania de um Estado vizinho e o seu direito de iniciar um projeto de desenvolvimento nacional para o qual os hidrocarbonetos têm papel central. Para Alckmin, o governo brasileiro deveria defender a qualquer custo os interesses das nossas empresas. Serra também criticou publicamente o apoio da embaixada brasileira ao presidente hondurenho deposto, quando o abrigou na embaixada, impedindo assim que ele tivesse sido capturado e assassinado pelos golpistas. E não é preciso imaginação para saber qual seria o posicionamento de um governo tucano em relação ao golpe de Estado no Equador.
           Em vista da atual conjuntura e do papel que o Estado brasileiro vem desempenhando na consolidação de uma maior integração regional,  a vitória do governo petista nas eleições, com todos os erros que nele podemos identificar, será, por isso, decisiva para  o fortalecimento da solidariedade entre os países latino-americanos, e para o impedimento de que o golpismo ganhe aval e, por isso, novamente força, na região.
             Fiquemos alerta, Honduras mostrou que a repetição do terrorismo de Estado é mais real do que aparentava ser.

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Algumas fontes:
1. http://www.brasildefato.com.br/node/2404;
2. http://www.zcommunications.org/coup-attempt-in-ecuador-by-eva-golinger;
3.http://www.telesurtv.net/noticias/secciones/nota/79253-NN/se-mantiene-estado-de-excepcion-en-ecuador-mientras-regresa-la-calma-tras-golpe/;
4.http://www.telesurtv.net/noticias/secciones/nota/79236-NN/chavez-rechaza-intento-de-golpe-de-estado-en-ecuador-y-responsabiliza-a-eeuu/;
5.http://www.telesurtv.net/noticias/secciones/nota/79269-NN/cancilleres-de-la-unasur-arriban-a-quito-para-ratificar-respaldo-a-la-democracia/ ;
6. http://www.telesurtv.net/noticias/contexto/2199/informe-confirmado-inteligencia-usa--penetro-a-fondo-la-policia-ecuatoriana/.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Iraque: ilusões do fim da invasão.

             A retirada das "tropas de combate" estadunidenses do Iraque, depois de 7 anos de uma invasão falaciosamente justificada pela administração Bush e que, em vez de democracia, levou para o povo iraquiano mais morte, estagnação econômica, sectarismo, conflito interno, etc., apesar ser vendida como o penúltimo passo para a retirada completa dos Estados Unidos do Iraque, a ser concluída em 2011, não condiz definitivamente com o que na realidade está ocorrendo. O contingente de 50.000 soldados "não-combatentes" que ainda permanece no Iraque, que segundo autoridades estadunidenses e iraquianas terá a função de "assessorar e assistir" as forças de segurança do país até o final do próximo ano, não é o que resta da presença norte-americana. O retorno das tropas abre passagem para a entrada de mais soldados de agências privadas de segurança e funcionários do Departamento de Estado, que permanecerão no país muito depois da retirada do último soldado das forças de coalizão, caso esta retirado de fato se conclua. 
             A conclusão, em 31 de agosto último, da retirada de 90.000 soldados - segunda etapa do acordo selado em 2008, no fim do governo de W. Bush - sinaliza o começo do novo papel que os EUA irão desempenhar no Iraque. De agora em diante é o Departamento de Estado, e não mais o Pentágono, que irá assumir as responsabilidades da presença norte-americana no país. E o departamento já iniciou negociações para a contratação em breve de mais 7.000 soldados privados, além de equipamentos como transportes blindados, helicópteros e aviões, etc., para "assessorar" o treinamento da polícia iraquiana. As guerras do Iraque e Afeganistão são as guerras da história contemporânea nas quais há a maior participação de empresas e contingentes privados de segurança. Em ambas tem havido casos recorrentes de abusos praticados (o assassinato de civis, por exemplo) por soldados funcionários dessas empresas, que em muitos casos são ex-soldados do exército norte-americanos, cujo novo trabalho, aliás mais lucrativo, é de serem mercenários.
           Tudo indica que a nova etapa da ocupação estadunidense do Iraque seja quase uma completa passagem de operações de segurança, inteligência e combate das mãos do Estado para o setor privado. Em poucas palavras, uma privatização da invasão. E muitos são os benefícios, para os Estados Unidos, dessa transição.
            O país ainda não se recuperou da pior crise econômica que tem enfrentado desde 1929, ainda sem previsão para ser completamente superada, e com um índice de desemprego de 10%. Na política externa, Obama aumentou a presença estadunidense no Afeganistão, estendendo a guerra para o Paquistão, aliás uma guerra sem previsões de vitória. Portanto, privatizar a invasão do Iraque significa diminuir os custos com uma guerra que já consumiu 700 bilhões de dólares do contribuinte norte-americano.
            Os EUA já conseguiram, senão completamente, ao menos em grande parte, consolidar os objetivos em função dos quais empreendeu a invasão: controle sobre o petróleo do país, expansão do poder estadunidense na região e estabelecimento de mais bases militares no Oriente Médio. Agora há, só no Iraque, 100 bases estadunidenses e dos países da coalizão. O objetivo de repartir o petróleo iraquiano entre as corporações norte-americanas já foi concluído logo nos primeiros anos da invasão. A presença militar estadunidense no Oriente Médio jamais foi tão grande quanto agora e as bases no Iraque e países vizinhos nunca tão numerosas e ativas. De maneira que os objetivos estratégicos e econômicos norte-americanos foram alcançados. 
               A passagem da responsabilidade pela segurança do país ao setor privado, primeiro, como já dito, diminui os custos do Estado e, em segundo lugar, diminui a pressão da sociedade americana sobre o governo em relação à guerra, dado que, uma vez privatizado o serviço de segurança, o governo estadunidense não precisa mais prestar tantas contas aos seus cidadãos sobre os rumos do Iraque. No que se refere ao Estado iraquiano, as empresas privadas contratadas não são submetidas a suas leis, uma vez que são contratadas pelo Departamento de Estado norte-americano. E como muitos dos donos dessas empresas são militares aposentados do alto escalão das forças armadas, alguns deles inclusive ligados à indústria bélica, o Estado e as corporações se confundem, e, sobre o sofrimento da população iraquiana, os lucros são repartidos.
               As condições sociais, políticas e econômicas do Iraque após 7 anos evidenciam o que muitos sabiam com base no que se pode esperar quando os Estados Unidos invadem um país prometendo democracia e liberdade. Afora o fato de o Iraque já estar há seis meses sem um governo, em função das eleições inconclusas para o Parlamento realizadas em março último, e de os integrantes do governo anterior, instalado pelos Estados Unidos, sofrerem ampla rejeição popular, o que mais causa sofrimento ao povo iraquiano é a ausência de infraestrutura básica e de políticas públicas mínimas.
             Após anos de embargo econômico e invasão, segundo dados das Nações Unidas, 80% da água iraquiana não é tratada e somente um quarto das casas estão ligadas a uma rede de esgoto pública. Num país em que 50% da população é menor de 19 anos, somente na capital, Bagdá, o índice de desemprego entre o jovens está em 30%. O Iraque possui a segunda maior taxa de mortalidade infantil entre os países da região, e mais de 300.000 iraquianos jovens nunca foram para escola. Estima-se que um quarto dos iraquianos vive em completa pobreza. Energia só é disponível algumas horas do dia e, embora seus poços jorrem petróleo, a escassez de combustível é frequente. Sabe-se muito bem para onde eles vão.
             O atual governo iraquiano depende dos Estados Unidos para a sua sobrevivência, e não é de se estranhar que funcionários do alto escalão e militares iraquianos temem a retirada das tropas estadunidenses e sustentem que as forças do país somente estarão prontas para atuar por conta própria em 2020. A população e os grupos insurgentes jamais aceitarão um regime submetido aos ditames de Washington, e cujos membros estão muito mais preocupados em se manter no poder e se beneficiar financeiramente da parceria com o invasor do que melhorar as condições de vida da população. As lideranças governamentais temem que a saída do EUA resulte no seu fim. Por isso veem com bons olhos o serviço prestado por soldados mercenários, um dos quais será o de proteger os membros do Parlamento.
             Segundo dados oficiais do governo norte-americano e de organizações internacionais, em 7 anos foram mortos por consequência direta da guerra 100.000 iraquianos e 4.4000 soldados estadunidenses. Estima-se que aproximadamente 4.000.000 de iraquianos foram deslocados e 2.000.000 tenham deixado o país. Contudo, os números são muito maiores. A presença estadunidense no Iraque remonta a 1991, guerra empreendida por Bush pai, e desde então os Estados Unidos jamais deixaram de bombardear o país e conseguir que o Conselho de Segurança da ONU aprove sanções atrás de sanções. Como decorrência de 20 anos de invasões, guerras e sanções o número de iraquianos mortos ultrapassa de longe 1.000.000.
             Sabemos que os crimes de guerra cometidos pelos Estados Unidos no Iraque jamais serão julgados, muito menos os seus principais arquitetos, Bush pai e Bush filho. Embora números sejam importantes para que a opinião pública tome certa dimensão dos horrores pelos quais gerações de iraquianos têm passado com a ocupação estadunidense, eles estão muito longe de fazer um pouco de justiça que seja ao sofrimento do povo iraquiano. A morte pode ser contabilizada, mas não existem dados e cálculos que meçam o medo, o desamparo e a falta de esperança que tomam conta de um povo submetido a um sofrimento forçado e sem perspectiva de término.
             Os Estados Unidos não só deixam a responsabilidade da "segurança" do país para terceiros, mas também deixam que as funções humanitárias fiquem a cargo de órgãos das Nações Unidas e ONGs. "Terminada" a guerra, já aumentam os “porta-vozes internacionais” dos direitos humanos prometendo realizar um trabalho conjunto com o governo local e a sociedade com o objetivo de erradicar a pobreza, a fome, a mortalidade infantil, etc. Este filme já vimos várias vezes: privatização, assessorada pelas Nações Unidas, da "ajuda humanitária". O que significa que muita gente ainda vai lucrar com a filantropia no Iraque.
             O envolvimento dos Estados Unidos no Iraque está muito longe de ter um fim. O general Ali Ghaidan, comandante em solo das forças iraquianas afirmou em entrevista que se precisarem de ajuda para manter "a segurança" a receberão dos Estados Unidos. E manter "a segurança" aqui significa, de forma velada, o que o presidente Barack Obama disse abertamente em pronunciamento para a nação estadunidense quando da retirada das tropas: "há ainda muito trabalho por fazer para garantir que o Iraque seja um efetivo parceiro nosso." Portanto, se os interesses de Washington forem ameaçados, tropas estadunidenses estarão prontas para atender os seus parceiros.
             Os rumos internos da vida político-social do Iraque a partir do próximo ano irão dizer o quanto de força os Estados Unidos estarão dispostos a empregar para manter a estabilidade, na região, dos seus interesses e dos negócios das suas corporações.
             

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

A ditadura e o empresariado nacional.

          Pouco ainda se sabe e se fala, por razões bem óbvias, da ligação do grande empresariado nacional com o regime militar. Contudo, é um fato real que o golpe de 1964 foi um golpe civil-militar, com forte suporte financeiro das elites industriais do país. Muitos empresários não somente apoiaram o golpe, mas também financiaram com grandes somas de dinheiro a repressão e a tortura. O caso mais conhecido é o da financiamento, por empresas paulistas, da Operação Bandeirantes (OBAN), criada em 1969 pelas forças armadas, em conjunto com as polícias civil e militar, para enfrentar a crescente resistência ao regime.
         A partir da implantação da OBAN, a ditadura aumentou, de forma sistemática e coordenada, a repressão e a tortura, causando a morte de várias pessoas que resistiam ao regime por meios armados ou não. Não somente dinheiro do empresariado nacional foi utilizado para aparelhar a OBAN, mas também de empresas multinacionais, como as automobilísticas FORD e General Motors. O temor do empresariado às possíveis reformas sociais prometidas pelo governo Goulart e apoiadas pela mobilização popular, na época vistas pelo próprio empresariado como “sindicalização do governo”, foi o fator central na articulação civil-militar do golpe. No decorrer dos anos de ditadura, tanto empresas nacionais quanto internacionais se beneficiaram da política econômica de "desenvolvimento" do regime. Os laços entre os generais e parte considerável do grande empresariado, sobretudo nos anos mais violentos do regime, eram tão grandes, que até o Ministro da Fazenda entre 1967 e 1974 (nos governos Costa e Silva e Médici), Delfim Neto, foi muitas vezes encarregado de lembrar o empresariado da importância do seu apoio financeiro à repressão.
         O empresariado nacional financiou fortemente o golpe e a tortura. De maneira que pensar nos 20 anos de total repressão aos direitos civis e políticos, sistemáticas prisões, torturas, assassinatos, etc., como duas décadas de um regime apenas militar, sem uma participação deliberada de parte da burguesia, quando não inocente, é querer simplificar os fatos da nossa história política recente e forjar uma narrativa que exime de responsabilidade direta arquitetos centrais do golpe.
         Se nem sequer no Brasil ainda se tem acesso público aos documentos das forças armadas no período, e tampouco um único torturado foi punido, imaginem quão distantes estão de terem que prestar contas à sociedade empresários e empresas que financiaram o regime, muitos dois quais ainda em atividade e influenciando os rumos políticos e econômicos do país. Se muitos dos torturadores ainda não têm nome nem rosto, quanto menos esses empresários, que equiparam a tortura, mas não sujaram suas mãos com sangue.
         Os ataques das elites dirigentes ao 3 Plano Nacional dos Direitos Humanos (PNDH), produto de ampla discussão do Estado com a sociedade civil organizada e movimentos sociais, que propõe a criação de um comissão para averiguar os crimes cometidos pelo regime, e tornar muito do que está encoberto público, tem suas razões. E elas são nítidas. Nomes aparecerão, e personagens e empresas influentes contarão em alguma lista.
          As elites brasileiras vão muito bem com a desmemória coletiva a respeito dos anos de chumbo, já que a anistia concedeu a liberdade de muitos continuarem impunes e influenciando os rumos do país. Ainda temos uma longa caminhada na luta contra o esquecimento deliberado que as elites, junto com os órgãos de mídia que elas mesmas controlam, alguns dos quais existem desde o regime, querem perpetuar. Um esquecimento que se traduz em impunidade e, por consequência, em repetição, com uma máscara democrática, de velhos hábitos. O silêncio imposto sempre foi uma grande arma das elites. E hoje a desinformação produzida pela mídia oligárquica, travestida de porta-voz do direito de voz, está comprometida com esse apagamento e distorção do que foi o regime e como ele foi arquitetado. Não é por coincidência que para a Folha de São Paulo a ditadura militar tenha parecido tão branda. O mesmo jornal emprestava seus carros para a OBAN usar como disfarce nas suas operações de captura e assassinato de membros da resistência.
         A sociedade civil organizada e os movimentos sociais, todavia, cada vez mais têm demonstrado que querem ver os crimes da ditadura averiguados pelo Estado, os nomes dos torturadores e seus apadrinhadores publicados e a realização de seus julgamentos . Está muito claro o forte conteúdo de classe nessa oposição das elites a que se mexa no passado. E não tenham dúvidas de que quanto maior for a pressão da sociedade para que os  responsaveis diretos pela tortura não fiquem impunes, maior será a contraofensiva das elites, pois o que está em jogo não é somente a memória, mas também as consequências da verdade tornada pública.
       Por isso que se a sociedade brasileira conseguir que se torne público e que se punam os crimes da ditadura, será uma prova concreta da força da sociedade civil organizada no Brasil atual, e um prenúncio de novas conquistas que estarão por vir.

 
  

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Após o Iraque, só falta o Irã.

           A quarta rodada de sanções contra o Irã aprovada pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas em 9 de junho último, embora não tenha tido o impacto econômico que Washington desejava, nem por isso foi insignificante, como muitos analistas a definiram. A última resolução reafirma e amplia o escopo de sanções já aprovadas nas três resoluções anteriores. A resolução prevê punições a entidades estrangeiras que venham a vender petróleo refinado ao Irã, ou auxiliar a sua capacidade doméstica de refinamento. O que é uma medida significativa, dado que a maioria do petróleo refinado do Irã, embora o país possua a terceira maior reserva de petróleo do mundo, é importado de empresas estrangeiras. A República Islâmica não possui a tecnologia necessária para o refinamento do seu petróleo. Países estão proibidos também de permitir que o Irã invista em suas plantas de enriquecimento nuclear, minas de urânio e outras tecnologias nucleares relacionadas e de venderem equipamento militar pesado para o país, como tanques, aviões, sistemas de mísseis, etc. Outro alvo de impacto das resoluções é sobre negócios e transações financeiras feitas pelo corpo da Guarda Revolucionária Islâmica, cujos membros possuem várias empresas no setor de energia. Aproximadamente 40 indivíduos estão banidos de viajar e estão com suas contas no exterior congeladas. A resolução também exige que países que mantém laços econômicos com o Irã inspecionem navios e aviões que tenham o Irã por destino ou que dele partam, caso suspeitem de que cargas proibidas estejam a bordo. 40 empresas estão na lista negra, o Banco Central Iraniano foi mencionado, seguido de um pedido para que os países “exercitem vigilância” ao negociar com ele, fato que sem dúvida dá bases legais para, num futuro imediato, estrangular as transações financeiras entre o Banco Central Iraniano e os bancos centrais dos outros países.
           Embora Pequim, como parceiro comercial do Irã e responsável por grandes obras de infraestrutura no país, como o metro de Teerã, tenha em certa medida frustrado as intenções de Washington de aprovar uma resolução final mais dura, o seu voto a favor no Conselho de Segurança, assim como o da Rússia, principal exportador de equipamento militar para o Irã, mostra que ao menos até agora ambos os países com poder de veto não estão dispostos a se contraporem aos Estados Unidos em relação aos seus objetivos na região.
       Mas a questão central do caso Irã é como novamente está se fabricando, como no caso do Iraque, a mentira de uma suposta ameaça militar. Toda a propaganda de que o Irã seria uma ameaça à estabilidade na região e estaria enriquecendo urânio com o propósito de desenvolver armas de destruição em massa é no mínimo ridícula. Mais um  mecanismo utilizado pelo governo estadunidense e sua mídia corporativa para desinformar deliberadamente a sua população, e forjar uma justificativa civilizatória para a invasão, traduzida nas palavras de Robert Gates, atual Secretário de Defesa dos Estados Unidos, por "fazer os iranianos entenderem quais são os seus melhores interesses”.
          O Irã é um dos países na região com o menor orçamento militar, 7 bilhões de dólares ao ano. Israel investe anualmente 12 bilhões de dólares e a Arábia Saudita 25 bilhões. O Irã está longe de ser uma força militar na região. O país nunca realizou incursões militares além do seu território e o seu poder atual é gerado muito mais pela condição geopolítica do Oriente Médio , do que por uma postura do próprio Irã. As medidas iranianas são claramente defensivas. Ninguém deseja que o Irã desenvolva armas nucleares, o que ele parece estar muito longe de conseguir, mas uma coisa é certa, com a forte presença militar  dos Estados Unidos e das forças de coalizão em países que fazem fronteira com o Irã - o Iraque a oeste e o Afeganistão a leste - e vendo a sua soberânia ameaçada,  parece que a única alternativa que resta ao Irã, para impedir uma invasão futura dos país, é o desenvolvimento de tecnologia nuclear para fins militares.
         Washington está dando rigorosamente os mesmos passos que antecederam a invasão do Iraque. Com o propósito de forçar uma instabilidade interna no Irã, primeiro forja a propaganda de demonização do país, que vem se intensificando desde a administração Bush. Em seguida, empreende uma guerra econômica mediante a aprovação de resoluções no Conselho de Segurança das Nações Unidas, com o propósito claro de estrangular economicamente o país. E, por fim, a invasão.
         Nunca é demais lembrar que o Oriente Médio é a preocupação central do governo estadunidense no que se refere a sua política externa e aos seus interesses econômicos. As três maiores reservas de petróleo estão na Arábia Saudita, Iraque e Irã, respectivamente.
          A Arábia Saudita, país mais anti-democrático na região, governado exclusivamente por uma família real, sempre foi um grande aliado de Washington, e é o regime ditatorial na região com o qual os Estados Unidos e suas companhias de petróleo mantém os negócios e parcerias mais consolidados. Já o Iraque, sob a ditadura de Saddam, foi por muito tempo um parceiro dos Estados Unidos, e com o apoio de Washington invadiu o Irã provocando uma guerra de quase uma década, que resultou na morte de aproximadamente 1 milhão de pessoas. Saddam usou até mesmo armas químicas contra populações civis no conflito. Quando Washington viu os seus interesses dificultados por Saddam, invadiu o país, e em quatro anos privatizou o petróleo iraquiano distribuindo-o entre suas corporações. Por meio da criação de uma lei chamada New Oil Law (Nova Lei do Petróleo), aprovada por um governo formado pelos Estados Unidos, o Iraque fechou contratos com as empresas estadunidenses, que repartiram entre si grande parte do bolo. Apesar da catástrofe humanitária, milhares de iraquianos mortos em decorrência de sanções e 7 anos de invasão, e 4.2 milhões de pessoas deslocadas pela guerra até 2007 (Refugies International, August 2007), a invasão tem se revelado um empreendimento altamente lucrativo para as companhias de petróleo estadunidenses, e geopoliticamente importante para o governo norte-americano. Ninguém tem dúvida de que controlar as principais fontes de petróleo do mundo garante um poder econômico sobre os países cuja economia depende fundamentalmente da exportação de petróleo e sobre países que precisam importar todo o seu petróleo.
           Se a questão fosse a ameaça militar, certamente que o problema central seria Israel, único país no Oriente Médio que possui armas nucleares, e principal aliado de Washington na região. Israel, embora possua armas de destruição em massa, não é signatário do Tratado Internacional de Não-proliferação de Armas Nucleares, e não permite qualquer inspeção do seu território por órgãos internacionais. Tanto Israel, quanto Índia e Paquistão, outras duas potências nucleares não signatárias, desenvolveram armas nucleares com transferência de tecnologia estadunidense.
          Talvez a evidência, para os que ainda preferem a propaganda do establishment, mais clara de que Washington tem outros interesses em relação ao Irã, foi o fato de os Estados Unidos desconsiderarem o acordo diplomático feito entre Brasil, Turquia e Irã, segundo o qual este se comprometeria a enviar parte do seu urânio não enriquecido para a Turquia e receber uma quantidade de urânia enriquecido para ser aplicado em tecnologia médica. Obama se opôs a esse acordo com o argumento de que ele já não contemplava o que era preciso ser feito, quando o próprio acordo foi proposto pelo governo estadunidense e considerado de grande importância numa carta enviada de Obama para Lula dias antes de iniciarem as reuniões em Teerã entre os três países.
         Historicamente, Washington desempenhou um papel central de desestabilização política e econômica do Irã. Em 1953, um governo laico, parlamentar iraniano eleito democraticamente foi deposto por um golpe arquitetado pelos Estados Unidos e a Inglaterra, e no lugar foi posto o governo tirano e clientelista do Xá, que ficou no poder até 1979, quando derrubado pelo levante popular que ficou conhecido por Revolução Islâmica.
          Motivo do golpe anglo-estadunidense: o governo iraniano havia nacionalizado o seu petróleo, então controlado por empresas britânicas e estadunidenses. Desde o fim da segundo guerra os Estados Unidos tem tido um papel determinante nos rearranjos geopolíticos da região, contribuído para a instabilidade na região e o fortalecimento de governos autoritários e de orientação fundamentalista. Independentemente da questão política interna do Irã, se seu atual governo viola direitos humanos e frauda eleições, “profana” Israel, e enriquece urânio com fins militares, essas não são as razões da guerra, até o momento, propagandística e econômica, iniciada na administração Bush, e aprofundada com Obama, contra o Irã. O que estamos a ver são os primeiros passos em direção a mais uma futura invasão. É quase certo que se os Estados Unidos não conseguirem desestabilizar o Irão ao ponto de provocar a queda do atual regime e a ascensão de um governo que não provoque a “instabilidade na região”, que, como Noam Chomsky muito bem observou, significa um governo que obedeça incondicionalmente às ordens de Washington, a invasão será inevitável.
       Se nem um possível veto no Conselho de Segurança pode parar os Estados Unidos quando os seus interesses e de suas corporações estão em jogo no Oriente Médio - basta lembrar como Washington passou por cima do Conselho de Seguranças no caso do Iraque - somente mesmo um Irã nuclear para salvaguardar a sua soberania. Contudo, o país parece estar ainda longe de tal capacidade. A situação atual no Oriente Médio, já bastante tensa, tente a se agravar nos próximos anos. Resta saber se os Estados Unidos estará realmente disposto a arcar com o ônus de mais uma guerra, quando ainda atolado em duas há aproximadamente uma década. Creio que sim, afinal de contas para Washington a guerra sempre parece trazer muito mais lucro e poder do que gastos.

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Algumas Fontes:

* The Iranian Threat, by Noam Chomsky http://www.zcommunications.org/the-iranian-threat-by-noam-chomsky-1;
*  Quarta Resolução de sanções contra o Irã http://daccess-dds-ny.un.org/doc/UNDOC/GEN/N10/396/79/PDF/N1039679.pdf?OpenElement  ;
* Iran is not the problem, documentário realizado por ativistas estadunidenses http://freedocumentaries.org/teatro.php?filmID=305&lan=en&size=big ;
* Entrevista com o Secretário de Defesa do Governo dos Estados Unidos, Robert Gates: http://english.aljazeera.net/programmes/frostovertheworld/2010/06/201061091243602584.html ;